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Carangas Cultural ©
Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
Projeto cultural independente.
Fazer uma lista dessas é assumir de cara que ela vai gerar briga. O rock nacional é grande demais pra caber em treze nomes, e tem banda fundamental que ficou de fora só porque o critério escolhido não favorecia ela.
O critério, aliás, não foi venda de disco nem quantas vezes a música toca no rádio. O que pesou foi outra coisa: o que cada artista mudou na forma como se faz rock no Brasil, o quanto abriu caminho pra quem veio depois, o quanto a obra ainda segura em pé hoje.
Mais que um ranking fechado, isto é uma tentativa de prestar contas com quem transformou o rock numa das coisas mais interessantes que a música brasileira produziu.
13. Charlie Brown Jr.
Quando o Charlie Brown Jr. surgiu em Santos, no começo dos anos 1990, o rock brasileiro já tinha perdido o embalo dos anos 80. E foi justo nesse vácuo que a banda achou espaço. Chorão, Champignon, Marcão Britto, Thiago Castanho e Renato Pelado jogaram hardcore, skate punk, rap, reggae e até funk num liquidificador só, e o resultado falava a língua de uma geração nova.
As letras tratavam de amizade, revolta, briga de família, amor, a rotina de crescer longe do eixo cultural do país. Não tinha fórmula a seguir ali, e talvez seja por isso que funcionou: o Charlie construiu uma identidade que era só dele.
Mesmo depois da morte do Chorão, Zóio de Lula, Só os Loucos Sabem e Dias de Luta, Dias de Glória continuam tocando em festival, em roda de violão, no streaming de quem nem tinha nascido quando essas músicas saíram.
12. RPM
Poucas bandas brasileiras explodiram tão rápido quanto o RPM. Paulo Ricardo, Luiz Schiavon, Fernando Deluqui e Paulo Pagni se juntaram em São Paulo em meados dos 80 e viraram fenômeno nacional quase da noite pro dia.
Sintetizador, guitarra e uma estética puxada pela new wave europeia deram à banda um som que soava moderno pra época. Rádio Pirata ao Vivo se tornou um dos discos mais vendidos da história da música brasileira e provou que rock também lotava ginásio, coisa que até então parecia papel de outros gêneros.
O auge durou pouco, mas foi suficiente pra deixar o rock mais palatável em massa e abrir porta pra outras bandas conquistarem público que antes nem olhava pro gênero.
11. Raimundos
Brasília já tinha reputação de revelar banda boa quando, no fim dos 80, apareceu um grupo que não parecia com nada do que já existia. Os Raimundos pegaram a velocidade do hardcore, a economia do punk, e enfiaram no meio ritmo nordestino, humor sem filtro e peso de guitarra.
Deu numa identidade que não tinha como confundir com outra coisa. Enquanto a maioria das bandas apostava em letra existencial ou romântica, os Raimundos preferiam gíria, sacanagem e personagem de rua.
Lavô Tá Novo e Só no Forevis venderam centenas de milhares de cópias e fizeram da banda uma das grandes referências dos anos 90. E provaram um ponto: dava pra fazer som pesado sem largar as referências mais brasileiras que existem.
10. Nação Zumbi
No começo dos 90, Recife vivia uma efervescência cultural rara. Foi dali que nasceu o Manguebeat, movimento puxado por Chico Science e Nação Zumbi, que juntava a cultura popular pernambucana com música urbana contemporânea sem pedir licença pra ninguém.
Alfaia, guitarra distorcida, maracatu, hip hop, funk e rock passaram a conviver na mesma faixa como se sempre tivessem pertencido junto. Era um som que o Brasil não tinha ouvido antes, prova de que rock não precisava imitar referência estrangeira pra soar atual.
A morte precoce de Chico Science, em 1997, poderia ter encerrado o projeto ali. Não encerrou. A Nação Zumbi seguiu em atividade e manteve vivo um dos experimentos musicais mais originais já feitos no país, um que mudou de fato o jeito como o rock brasileiro conversa com as próprias raízes.
9. Sepultura
Nenhuma banda brasileira chegou tão longe internacionalmente dentro do rock pesado quanto o Sepultura. Formado em Belo Horizonte pelos irmãos Max e Igor Cavalera, o grupo começou puxando pro thrash metal e rápido construiu cara própria.
Beneath the Remains, Arise, Chaos A.D. e Roots fizeram do Sepultura referência mundial. O diferencial sempre foi trazer a cultura brasileira pra dentro do metal, principalmente em Roots, disco que juntou guitarra pesada com percussão indígena e ritmo tradicional de um jeito que ninguém tinha tentado antes.
Cantar em inglês nunca apagou a origem da banda. O sucesso do Sepultura abriu porta lá fora pra bandas brasileiras que vieram depois e colocou o país de vez no mapa do metal mundial.
8. Barão Vermelho
No começo dos 80, o Barão Vermelho chegou com uma energia que remetia ao rock clássico, mas com letra profundamente urbana. A parceria entre Cazuza e Roberto Frejat virou uma das mais importantes da música brasileira.
Cazuza transformava sentimento, excesso e inquietação em poesia. Frejat construía o riff que sustentava tudo isso em pé. Mesmo depois da saída do vocalista, a banda seguiu relevante, o que é raro no rock nacional, onde a maioria não sobrevive à saída de quem canta.
Pro Dia Nascer Feliz, Bete Balanço e Por Você atravessaram décadas dialogando com públicos bem diferentes entre si sem que a banda precisasse abrir mão de quem era.
7. Os Paralamas do Sucesso
Quando Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone começaram a tocar juntos, ninguém apostava que aquele trio se tornaria uma das formações mais importantes da história do rock brasileiro. Já nos primeiros discos dava pra ver que a proposta era outra.
Os Paralamas misturaram rock, reggae, ska, dub e música latina com uma naturalidade que era rara pra época. Em vez de copiar modelo inglês ou americano, criaram língua própria, com arranjo sofisticado e letra que passeava entre o cotidiano, a política e o relacionamento.
Numa carreira que já passa de quatro décadas, a banda seguiu relevante sem abandonar o que a fez ser quem é. Poucos grupos brasileiros equilibraram tão bem sucesso popular, qualidade musical e tempo de estrada.
6. Legião Urbana
Poucas bandas traduziram tão bem o sentimento de uma geração quanto a Legião Urbana. Formada em Brasília em 1982 por Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, ela nasceu no meio da redemocratização, quando a juventude começava a olhar pro futuro depois de anos de ditadura.
Renato Russo escrevia sobre política, religião, amor, solidão e o conflito de existir sem recorrer a fórmula fácil. Era um rock que convidava a pensar e, mesmo assim, emocionava. Tempo Perdido, Pais e Filhos, Faroeste Caboclo e Índios continuam sendo cantadas por gente que nem tinha nascido quando essas músicas foram gravadas.
A Legião virou símbolo antes mesmo de vender os milhões de discos que vendeu. Poucas bandas ocupam um espaço tão grande na memória coletiva quanto ela.
5. Novos Baianos
É difícil enfiar os Novos Baianos dentro de um rótulo só. A banda misturava rock, samba, choro, frevo, baião e MPB com uma naturalidade que impressiona até hoje. Enquanto boa parte do rock brasileiro ainda buscava referência lá fora, eles mostravam que dava pra fazer música moderna olhando pra dentro do próprio país.
Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Dadi Carvalho viveram de forma comunitária boa parte dos anos 1970, e essa convivência ajudou a moldar uma identidade artística bem própria.
Acabou Chorare costuma aparecer nas listas dos maiores discos já feitos no Brasil. Mais que um clássico, ele provou que tradição e inovação podiam andar juntas, influenciando músico muito além do universo do rock.
4. Secos & Molhados
Quando os Secos & Molhados apareceram em 1973, o público brasileiro nunca tinha visto nada parecido. Maquiagem pesada, figurino extravagante, teatralidade no palco. Chamava atenção na hora, mas seria injusto resumir a banda só ao visual.
O som misturava rock, folk, música portuguesa e poesia brasileira em arranjo sofisticado, enquanto Ney Matogrosso surgia como um dos intérpretes mais marcantes da música nacional. Em plena ditadura, a banda ainda rompia barreira de comportamento e liberdade de expressão, o que dava outro peso a tudo aquilo.
A trajetória foi curta, o impacto não. Dá pra ver a marca dos Secos & Molhados em gerações de artista que passaram a entender o palco como extensão da própria arte.
3. Raul Seixas
Raul Seixas nunca pertenceu de fato a movimento nenhum. Dialogou com a Tropicália, com o rock clássico, com a música nordestina, mas construiu uma obra que era só dele. O talento estava em pegar referência muito diferente e transformar tudo numa linguagem acessível e brasileira até a raiz.
Nascido em Salvador, Raul começou a carreira nos anos 60 e só encontrou a própria identidade na década seguinte. Com o escritor Paulo Coelho, escreveu canções que misturavam filosofia, crítica social, humor e reflexão sobre liberdade individual.
Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Mosca na Sopa e Sociedade Alternativa continuam atuais porque falam de inquietação que não tem prazo de validade. Poucos artistas construíram obra tão original e tão longe de qualquer padrão que se possa nomear.
2. Titãs
Os Titãs nasceram em São Paulo, em 1982, reunindo nove integrantes com personalidade e influência completamente diferentes entre si. Em vez de tratar isso como problema, a banda transformou a diversidade na própria força.
Passaram pelo punk, pelo pós-punk, pelo pop, pelo rock pesado e até pela música eletrônica sem perder o que os fazia ser Titãs. Essa capacidade de se reinventar explica como atravessaram mais de quatro décadas sem perder relevância.
Cabeça Dinossauro, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas e Õ Blésq Blom ajudaram a redefinir o rock brasileiro. Ao mesmo tempo em que faziam sucesso no rádio, os Titãs criticavam sociedade, política, consumo e instituição, provando que rock também servia pra fazer pensar.
1. Os Mutantes
Se existe uma banda que mudou de vez o rumo do rock brasileiro, é Os Mutantes.
Formado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias no fim dos anos 60, o grupo surgiu no coração da Tropicália e rápido ultrapassou qualquer definição que tentassem colar nele. Enquanto boa parte do mundo ainda descobria a psicodelia, eles já experimentavam com instrumento modificado, gravação inovadora, efeito sonoro e arranjo que parecia não seguir regra nenhuma.
Misturar Beatles com música caipira, rock com bossa nova, guitarra distorcida com orquestra: nada disso assustava Os Mutantes. Essa liberdade criativa acabou influenciando músico brasileiro e estrangeiro, e transformou a banda em referência pra artista de estilo bem diferente ao redor do mundo.
Mais de cinco décadas depois, os discos deles continuam sendo redescobertos por gente que nem tinha nascido na época. Poucas bandas brasileiras foram tão inventivas, tão corajosas e tão decisivas pra construção de uma identidade própria do rock nacional.
O rock brasileiro continua sendo escrito
Toda lista dessas está aberta a briga, e essa aqui não é exceção. Vai ter quem sinta falta do Engenheiros do Hawaii, do Ira!, do O Rappa, do Skank, do Capital Inicial, da Plebe Rude, do Ratos de Porão, e tem razão em sentir.
Talvez seja essa a maior prova da força do rock brasileiro: são tantas bandas importantes, de época, região e estilo tão diferentes, que nenhuma lista dá conta de representar tudo isso de uma vez.
Quem ficou de fora dessa aqui, na sua opinião? Deixa nos comentários.

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