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Neste 11 de outubro de 2026, um dos artistas mais inventivos da música brasileira completa 90 anos. De Irará, no interior da Bahia, aos palcos internacionais, Tom Zé construiu uma carreira marcada pela experimentação, pelo humor e por uma maneira muito particular de entender a música.
Antônio José Santana Martins nasceu em 11 de outubro de 1936, na pequena cidade de Irará, no interior da Bahia. Cresceu ouvindo Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, samba de roda e os grandes cantores que chegavam pelo rádio. Foi numa gaitinha que conseguiu tirar suas primeiras notas de “Asa Branca”, composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Aos 17 anos, descobriu o violão e começou a desenvolver o interesse que acabaria definindo sua vida.
Ainda adolescente, a leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha, ajudou a ampliar sua compreensão sobre o Nordeste e suas contradições. As experiências em Irará também deixaram marcas profundas em sua maneira de se apresentar. Uma de suas referências eram os vendedores ambulantes conhecidos como “homens da mala”, que chegavam às cidades do interior e transformavam a demonstração de mercadorias em verdadeiros espetáculos, misturando humor, improviso e conversa com o público.
Anos depois, essa combinação de música, teatro e irreverência se tornaria uma característica de suas apresentações.
Da Bahia para a Tropicália
No início dos anos 1960, Tom Zé mudou-se para Salvador e passou a frequentar um ambiente de intensa movimentação cultural. Na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, estudou com professores como Hans-Joachim Koellreutter, Ernst Widmer e Walter Smetak, nomes ligados à música experimental e às vanguardas europeias.
Foi também nessa época que se aproximou de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Em 1964, participou com eles do espetáculo Nós, Por Exemplo, apresentado na inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador. No ano seguinte, integrou Arena Canta Bahia, dirigido por Augusto Boal, em São Paulo.
Tom Zé ainda teve participação indireta na formação de outro grupo fundamental para a música brasileira. Foi professor de violão de Moraes Moreira e, em 1967, apresentou o músico ao poeta Luiz Galvão. A parceria entre os dois seria decisiva para o surgimento dos Novos Baianos.
Em 1968, Tom Zé mudou-se para São Paulo e participou do movimento tropicalista, ao lado de artistas que buscavam novas possibilidades para a música brasileira. Gravou “Parque Industrial” no histórico álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circencis e compôs “2001” em parceria com Rita Lee, canção que ganharia uma interpretação dos Mutantes.
Naquele mesmo ano, venceu o IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com “São, São Paulo, Meu Amor”, uma composição bem-humorada e crítica sobre a maior cidade do país. Também lançou seu primeiro álbum solo, Grande Liquidação, no qual observava os hábitos urbanos, a publicidade, o consumo e as transformações da sociedade brasileira.
Quando o barulho virou música
Tom Zé nunca demonstrou grande interesse em seguir os caminhos convencionais da composição popular. A partir do final dos anos 1960, passou a desenvolver métodos próprios de criação, trabalhando com pequenos fragmentos musicais, repetições rítmicas, sobreposições de sons e estruturas pouco habituais.
Enceradeiras, serrotes, máquinas de escrever e outros objetos do cotidiano passaram a integrar suas experiências sonoras. Alguns instrumentos eram construídos ou adaptados especialmente para suas apresentações, enquanto ruídos normalmente considerados estranhos à música ganhavam espaço nos arranjos.
Essa pesquisa encontrou resultados particularmente importantes em dois álbuns: Todos os Olhos, de 1973, e Estudando o Samba, de 1976.
No primeiro, Tom Zé aprofundou a experimentação e apresentou uma das capas mais provocativas da discografia brasileira. No segundo, investigou as possibilidades rítmicas e estruturais do samba, desmontando padrões conhecidos e reorganizando-os de maneiras inesperadas. Faixas como “Mã”, “Toc” e “Tô” mostram diferentes aspectos desse trabalho.
Em “Tô”, parceria com Elton Medeiros, Tom Zé canta alguns dos versos mais conhecidos de sua carreira: “Eu tô te explicando pra te confundir”.
O humor era parte fundamental de seu trabalho, assim como a crítica social e a disposição para questionar os próprios procedimentos da música popular.
O artista que quase abandonou a música
A originalidade de Tom Zé, entretanto, não encontrou espaço fácil na indústria fonográfica brasileira. Enquanto outros nomes da Tropicália alcançavam grande popularidade, o compositor viu seus discos receberem pouca atenção comercial. Durante as décadas de 1970 e 1980, continuou gravando e se apresentando, principalmente em circuitos alternativos e universitários, mas permaneceu distante do grande público.
As dificuldades chegaram a um ponto em que ele considerou abandonar a carreira e retornar à Bahia. Foi nesse período que aconteceu uma das reviravoltas mais curiosas de sua trajetória.
Em 1986, David Byrne, músico norte-americano conhecido pelo trabalho à frente dos Talking Heads, encontrou uma cópia de Estudando o Samba durante uma visita ao Brasil. Impressionado com o disco, interessou-se pela obra daquele compositor praticamente desconhecido fora do país.
O encontro entre os dois, em 1988, abriu caminho para uma nova fase. Em 1990, Byrne lançou uma coletânea de Tom Zé pelo selo Luaka Bop, apresentando sua música ao público dos Estados Unidos e da Europa. Pouco depois, vieram novos lançamentos, turnês internacionais e o reconhecimento de importantes veículos da imprensa estrangeira.
Em 1993, Tom Zé se apresentou no Central Park, em Nova York, e recebeu uma crítica elogiosa do The New York Times. O artista que poucos anos antes pensava em desistir da música começava a conquistar uma plateia internacional.
Uma carreira que nunca parou de experimentar
O reconhecimento tardio não mudou a disposição de Tom Zé para a pesquisa musical. Em 1998, lançou Com Defeito de Fabricação, álbum que entrou na seleção dos dez melhores discos daquele ano do The New York Times. Em Jogos de Armar, de 2000, levou a proposta experimental ainda mais longe, oferecendo um CD auxiliar com elementos musicais para que os próprios ouvintes pudessem criar novas combinações.
Nas décadas seguintes, continuou produzindo discos, trabalhando com músicos de outras gerações e explorando temas que vão das relações entre homens e mulheres à formação cultural e linguística do Brasil. Sua discografia inclui trabalhos como Estudando o Pagode (2005), Tropicália Lixo Lógico (2012), Vira Lata na Via Láctea (2014) e Língua Brasileira(2022).
Sua influência também pode ser percebida no trabalho de artistas mais jovens, como Kiko Dinucci, Emicida, Rodrigo Amarante, Tim Bernardes e outros músicos que encontraram em sua obra uma referência de liberdade criativa.
Tom Zé chega aos 90 anos em plena atividade
Neste domingo, 11 de outubro de 2026, Tom Zé completa 90 anos. Na última sexta-feira, dia 9, comemorou a data com um show no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e já trabalha na preparação de um álbum de músicas inéditas.
São mais de seis décadas de uma carreira que atravessou a Tropicália, enfrentou o esquecimento comercial, conquistou reconhecimento internacional e nunca abandonou a experimentação. Aos 90 anos, Tom Zé continua interessado em descobrir novas possibilidades para a música.
Para a Carangas Cultural, celebrar seu aniversário é também uma oportunidade de revisitar uma discografia que merece ser ouvida com atenção, das primeiras composições aos trabalhos mais recentes.
Vida longa a Tom Zé! Que venham mais músicas, invenções e muitos aniversários!
E para você, qual é a melhor música de Tom Zé? Qual canção indicaria para alguém que está conhecendo sua obra agora? Compartilhe sua escolha nos comentários e participe dessa homenagem aos seus 90 anos.

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