![]()
Carangas Cultural ©
Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
Projeto cultural independente.
Hoje, 8 de outubro, é Dia do Nordestino. Para marcar a data, resolvemos entrar numa discussão daquelas em que ninguém sai completamente satisfeito: escolher 13 dos maiores discos feitos por artistas nordestinos.
A dificuldade começa antes mesmo do primeiro nome. Estamos falando de nove estados, várias gerações e uma produção que atravessa baião, samba, frevo, rock, psicodelia, forró, Tropicália, manguebeat e uma quantidade de coisas que nem cabem direito nessas categorias. Bahia e Pernambuco, principalmente, renderiam listas próprias sem muito esforço.
Então não, esses não são “os 13 discos que resumem o Nordeste”. Isso seria uma bobagem. São 13 álbuns que consideramos fundamentais, escolhidos pela qualidade, pela importância que tiveram e pelo que continuam provocando quando tocados hoje.
E sim, vai faltar disco.
13. Ave Sangria, Ave Sangria (1974)
Recife tinha uma cena psicodélica das mais interessantes do país nos anos 1970, embora durante muito tempo pouca gente fora de Pernambuco soubesse disso. A Ave Sangria foi um dos grupos que saíram daquele ambiente.
O único álbum lançado pela formação clássica tem guitarras, psicodelia, referências nordestinas, contracultura e letras que podiam ser bastante ousadas para 1974. “Seu Waldir”, com sua história de desejo por outro homem, acabou censurada.
Talvez o mais interessante seja perceber como o disco envelheceu pouco. Não no sentido de parecer uma gravação atual, porque ele é completamente setentista, mas porque continua difícil de encaixar em alguma prateleira confortável.
12. Zé Ramalho, Zé Ramalho (1978)
Antes desse disco, Zé Ramalho já tinha rodado bastante. Tinha tocado na Paraíba, passado pela cena pernambucana, participado de Paêbirú e absorvido música nordestina, rock, folk e psicodelia.
Quando finalmente lançou o primeiro álbum solo, apareceu com “Avôhai”, “Chão de Giz” e “Vila do Sossego”. Não é exatamente uma estreia tímida.
A voz grave, as letras cheias de imagens estranhas e aquela mistura de cordel, viola e referências do rock estavam praticamente todas ali. O Zé Ramalho que se tornaria conhecido no Brasil inteiro já chega bastante formado nesse disco.
11. Raul Seixas, Krig-ha, Bandolo! (1973)
É difícil encontrar muito disco brasileiro com uma sequência como “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Dentadura Postiça”, “As Minas do Rei Salomão”, “Al Capone” e “Ouro de Tolo”.
Raul já tinha vivido sua fase de Raulzito e os Panteras, trabalhado como produtor e passado alguns anos tentando descobrir como colocar em disco aquilo que tinha na cabeça. Em Krig-ha, Bandolo!, finalmente conseguiu.
O rock americano que ele ouvia desde a adolescência em Salvador está ali, mas passa pelo baião, pelo humor brasileiro, pela filosofia de boteco, por referências esotéricas e pela parceria recém-iniciada com Paulo Coelho. Raul não precisava escolher entre Elvis e Luiz Gonzaga. Essa falta de cerimônia ajudou a criar uma obra que só poderia ser dele.
10. Luiz Gonzaga, A História do Nordeste na Voz de Luiz Gonzaga (1955)
Luiz Gonzaga já era famoso havia anos quando esse LP foi lançado. “Asa Branca”, por exemplo, era de 1947. O disco reúne gravações anteriores e funciona quase como uma apresentação concentrada do universo que Gonzaga vinha levando para o rádio brasileiro desde a década anterior.
Tem “Paraíba”, “Respeita Januário”, “O Xote das Meninas”, “ABC do Sertão”, “Acauã” e “Asa Branca”. É difícil imaginar outra seleção de oito músicas capaz de dizer tanta coisa sobre a dimensão que a obra dele alcançou.
O sertão aparece pela seca e pela migração, mas também pelo trabalho, pelas festas, pela família, pela fala, pelo humor e pela música. Antes de Gonzaga, esses assuntos já existiam evidentemente na cultura nordestina. O que ele conseguiu foi colocá-los no centro da indústria musical brasileira e falar com o país inteiro sem eliminar o sotaque de onde aquelas canções vinham.
9. Gal Costa, Gal Costa (1969)
A Gal dessa capa cercada por flores está longe de ser uma cantora comportada.
O disco começa com “Não Identificado”, passa por “Sebastiana”, “Lost in the Paradise”, “Namorinho de Portão”, “Divino, Maravilhoso”, “Que Pena” e “Baby”. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Jorge Ben, Roberto Carlos e Erasmo Carlos aparecem no repertório, enquanto Rogério Duprat, Gil e Lanny Gordin ajudam a construir a parte instrumental.
Gal tinha vindo de uma interpretação muito ligada à bossa nova. Aqui ela podia cantar delicadamente numa faixa e, alguns minutos depois, praticamente disputar espaço com guitarras elétricas.
É um disco de transição, só que a transição já é uma obra-prima.
8. Dorival Caymmi, Canções Praieiras (1954)
O primeiro LP de Dorival Caymmi tem oito músicas, voz, violão e praticamente nenhum excesso. Não precisava.
Caymmi escreve sobre um mundo que conhecia desde menino: o mar de Salvador, os pescadores, as embarcações, a espera de quem fica em terra e o risco de quem sai para trabalhar. Em “O Mar”, “É Doce Morrer no Mar” e “A Jangada Voltou Só”, a morte não aparece como recurso dramático inventado para uma canção. Faz parte da vida daquela comunidade.
Em outros momentos, como “Saudade de Itapoã”, a paisagem muda de função e vira lembrança. Caymmi consegue fazer tudo isso com uma economia impressionante de palavras e acordes.
É um disco pequeno no tamanho e enorme no que constrói.
7. Gilberto Gil, Expresso 2222 (1972)
Gil voltou ao Brasil no começo de 1972, depois de mais de dois anos de exílio em Londres. Expresso 2222 saiu naquele mesmo ano e é impossível separar completamente uma coisa da outra.
“Back in Bahia” já entrega no título o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, o período fora do Brasil tinha ampliado ainda mais o repertório musical de Gil. Rock, pop, reggae e outras experiências convivem com baião, samba e com referências que ele carregava desde a Bahia.
Só que Expresso 2222 nunca soa como um catálogo de gêneros. Talvez por isso funcione tão bem.
6. Lula Côrtes e Zé Ramalho, Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol (1975)
Em algum momento, Paêbirú ficou quase tão famoso pela raridade do vinil quanto pela música. Grande parte da prensagem original teria sido perdida numa enchente que atingiu a fábrica da Rozenblit, no Recife, e as cópias sobreviventes passaram a alcançar valores absurdos entre colecionadores.
Mas seria uma pena conhecer o disco só por essa história.
Lula Côrtes e Zé Ramalho, acompanhados por vários músicos ligados à cena pernambucana, gravaram um álbum duplo dividido conceitualmente entre terra, ar, fogo e água. Tem guitarra, viola, percussão, flauta, ruídos, improvisações, vozes e passagens em que parece que todo mundo decidiu seguir a música até descobrir onde ela terminaria.
É um dos grandes documentos daquela psicodelia nordestina que durante muito tempo ficou escondida nas margens da história oficial da MPB.
5. Tom Zé, Estudando o Samba (1976)
O nome é perfeito porque Tom Zé realmente pega o samba e começa a examiná-lo por todos os lados.
A diferença é que o estudo não acontece de maneira respeitosa demais. Ele repete coisas até elas ficarem estranhas, desloca instrumentos, interrompe movimentos, brinca com palavras e usa ideias que em outros contextos poderiam parecer experimentação pura.
Só que continua sendo um disco divertido.
Esse equilíbrio talvez explique por que Estudando o Samba ganhou tanta vida depois de seu lançamento. O álbum passou anos sem receber a atenção correspondente ao que tinha dentro e acabou se tornando peça central na redescoberta internacional de Tom Zé décadas mais tarde.
Hoje parece óbvio que é uma obra fundamental. Na época, não era.
4. Belchior, Alucinação (1976)
Tem artista que precisa de meia discografia para explicar o que pensa. Belchior conseguiu colocar boa parte de suas obsessões num único álbum.
Alucinação fala da juventude que cresceu acreditando em certas promessas dos anos 1960 e chegou à década seguinte encontrando ditadura, emprego, dinheiro curto, migração, decepções amorosas e uma vida adulta que não tinha nada de heroica.
“Como Nossos Pais”, “Velha Roupa Colorida”, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “Sujeito de Sorte”, “Fotografia 3×4”. É até difícil escolher por onde entrar.
Belchior também escreve a partir de uma condição muito concreta: o cearense que saiu do Nordeste e foi tentar a vida no Sudeste. Isso está espalhado pelo disco sem transformar Alucinação num álbum “sobre migração”.
Talvez seja por isso que tanta gente continue encontrando a própria vida nessas músicas quase cinquenta anos depois.
3. Caetano Veloso, Transa (1972)
Caetano não gostava de viver em Londres. Já falou sobre isso muitas vezes. Curiosamente, foi ali que gravou um dos discos mais queridos de sua carreira.
Transa tem sete faixas e uma banda maravilhosa formada por músicos como Jards Macalé, Tutty Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza. Há momentos em que português e inglês aparecem na mesma canção sem qualquer aviso, e referências brasileiras surgem no meio de reggae, rock e da música que Caetano estava ouvindo na Inglaterra.
“You Don’t Know Me” abre o disco. “Nine Out of Ten” provavelmente é uma das melhores coisas que ele gravou naquele período. “Triste Bahia” pega Gregório de Matos e leva a música por mais de nove minutos. “Mora na Filosofia” encerra tudo voltando a Monsueto e Arnaldo Passos.
É um disco de exílio que nunca fica preso à condição de “disco de exílio”.
2. Chico Science & Nação Zumbi, Da Lama ao Caos (1994)
Em 1994, muita gente ouviu aqueles tambores e guitarras e percebeu que alguma coisa nova estava acontecendo em Recife.
Não surgiu do nada. O manguebeat já vinha sendo articulado na cidade, havia bandas, festas, ideias circulando e um ambiente cultural inteiro se movimentando. Da Lama ao Caos foi o disco que conseguiu apresentar boa parte daquela inquietação para o restante do Brasil.
Chico Science falava de caranguejo, antena parabólica, mangue, desigualdade, cidade grande, tecnologia, cultura popular. A Nação Zumbi colocava maracatu, rock, hip-hop, funk e uma parede de percussão embaixo daquilo.
O ponto nunca foi “modernizar” o maracatu como se ele precisasse ser salvo por uma guitarra elétrica. Era justamente o contrário. Tudo podia pertencer ao presente.
Depois desse disco, ficou muito mais difícil falar em música brasileira dos anos 1990 sem olhar para Recife.
1. Novos Baianos, Acabou Chorare (1972)
Antes de Acabou Chorare, os Novos Baianos estavam muito mais próximos do rock. A aproximação com João Gilberto mudou bastante o rumo da banda. Ele frequentou o grupo, mostrou sambas, conversou sobre violão e acabou exercendo uma influência decisiva sobre aqueles músicos.
Mas Pepeu Gomes não guardou a guitarra elétrica no armário. Esse é o detalhe fundamental.
O disco que nasceu dali não escolhe entre João Gilberto e Jimi Hendrix, entre Assis Valente e rock and roll. “Brasil Pandeiro” abre o álbum e logo depois vem “Preta Pretinha”. Em seguida aparecem “Tinindo Trincando”, “Swing de Campo Grande”, “Acabou Chorare”, “Mistério do Planeta”, “A Menina Dança” e “Besta é Tu”.
Tudo parece pertencer à mesma banda porque pertence mesmo. Não existe aquela sensação de músico tentando provar que sabe misturar gêneros.
Os Novos Baianos simplesmente chegaram a um som próprio.
Por isso Acabou Chorare fica em primeiro na nossa lista. Não porque exista alguma maneira objetiva de declarar qual é “o melhor disco nordestino da história”, mas porque poucos álbuns brasileiros juntaram repertório, músicos, invenção e prazer de tocar nesse nível.
Poderia ser outra lista?
Facilmente.
Jackson do Pandeiro não entrou. Alceu Valença não entrou. Fagner, Ednardo, Djavan, Hermeto Pascoal, Maria Bethânia, Os Tincoãs, Di Melo, Geraldo Azevedo, Chico César, Mundo Livre S/A, Otto e BaianaSystem também ficaram de fora.
E aí está o problema bom de fazer uma lista dessas. Quando 13 posições acabam e você ainda consegue lembrar de uma porção de discos que mereceriam estar nela, talvez a conclusão mais interessante não seja descobrir quem ficou em primeiro lugar.
É perceber o tamanho da música que saiu do Nordeste.
Agora é com você: qual disco faltou nessa lista?

Descubra 75 discos que todo apaixonado por música brasileira deveria conhecer.
Um ebook com mais de 220 páginas reunindo histórias, curiosidades e álbuns que ajudam a compreender a riqueza da nossa música.








