Zé Ramalho antes da fama: Jovem Guarda, cordel, Medicina, psicodelia e noites difíceis no Rio

Zé Ramalho completa 77 anos neste 3 de outubro de 2026. Antes de “Avôhai”, “Chão de Giz” e “Admirável Gado Novo”, sua história passou por bandas de Jovem Guarda, uma faculdade de Medicina abandonada, experiências psicodélicas, um disco hoje cultuado e anos difíceis tentando viver de música no Rio de Janeiro.

José Ramalho Neto nasceu em 3 de outubro de 1949, em Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba. Filho da professora Estelita Torres Ramalho e do seresteiro Antônio de Pádua Pordeus Ramalho, perdeu o pai ainda criança, vítima de afogamento. Passou então a ser criado pelos avós paternos. 

Essa relação com o avô José Alves Ramalho seria transformada anos depois em uma das músicas mais conhecidas de sua carreira. “Avôhai” é uma palavra criada pelo próprio Zé a partir da junção de “avô” e “pai”. 

Da Jovem Guarda a Bob Dylan

Depois de passar parte da infância em Campina Grande, Zé Ramalho foi morar em João Pessoa. Foi ali que sua formação musical começou a ganhar contornos mais claros.

Na adolescência, participou de grupos influenciados pela Jovem Guarda. Entre suas referências estavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Leno & Lílian e Golden Boys. Ao mesmo tempo, ouvia Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Bob Dylan.

O próprio Zé conta que ouvir “I Want to Hold Your Hand”, dos Beatles, mudou sua relação com a música. Depois dos 20 anos, esse repertório vindo do rock começou a se encontrar com os cantadores, os violeiros do sertão, o repente e a literatura de cordel.

Essa combinação ajudaria a explicar muito do que apareceria depois em suas composições: guitarra e viola, rock e forró, referências estrangeiras e formas tradicionais da poesia nordestina.

O estudante de Medicina que já escrevia “Avôhai”

A família esperava que Zé Ramalho seguisse outro caminho. Ele passou no vestibular para Medicina da Universidade Federal da Paraíba e chegou ao segundo ano do curso antes de abandoná-lo.

A música, porém, já ocupava cada vez mais espaço.

Em entrevista concedida décadas depois, Zé contou que naquele período já tinha composições como “Avôhai”, “Chão de Giz” e “Vila do Sossego” prontas. Quando decidiu abandonar Medicina, sabia que teria de apostar de vez na tentativa de viver como compositor e cantor.

Em 1974, participou da trilha sonora do filme Nordeste: Cordel, Repente e Canção, de Tânia Quaresma. Segundo sua biografia oficial, foi a partir dessa experiência que a mistura entre elementos nordestinos e roqueiros ganhou força em seu trabalho.

Paêbirú e a fase psicodélica

Antes de seu primeiro disco solo, Zé Ramalho gravou com Lula Côrtes um dos trabalhos mais curiosos de sua trajetória.

Lançado em 1975, Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol mergulhava em rock psicodélico, experimentação e ritmos nordestinos. O álbum duplo foi dividido conceitualmente entre os quatro elementos da natureza: terra, ar, fogo e água.

O disco acabaria se tornando uma raridade. Parte de sua tiragem foi perdida na grande enchente que atingiu Recife em 1975, o que ajudou a transformar exemplares originais em peças disputadas por colecionadores.

A psicodelia daquele período também aparece diretamente na história de “Avôhai”.

Zé contou que a composição surgiu depois de uma experiência com cogumelos alucinógenos. Ele havia entrado em contato com os fungos durante o período em que estudava Medicina e descreveu a criação da música como algo que chegou quase inteiro: letra, melodia e imagens surgindo em sequência.

Para ele, “Avôhai” reunia lembranças da infância, referências a Brejo do Cruz, imagens produzidas naquela experiência e a figura do avô que havia ocupado o lugar de pai.

A decisão de largar tudo e ir para o Rio

Em 1976, Zé Ramalho deixou a Paraíba e foi para o Rio de Janeiro tentando ampliar suas possibilidades profissionais.

A realidade foi dura, durante quase dois anos, procurou oportunidades para mostrar suas músicas e conseguir uma gravadora. Segundo sua biografia oficial, enfrentou dificuldades para pagar moradia e alimentação.

Anos depois, ele contou que algumas mulheres que conhecia nas portas de teatros percebiam sua situação. Passavam a noite com ele e, pela manhã, deixavam algum dinheiro que ajudava a garantir o café da manhã.

Essas experiências entrariam na composição de “Garoto de Aluguel”, lançada mais tarde no álbum A Peleja do Diabo com o Dono do Céu.

Os “nãos” até chegar à CBS

Além da falta de dinheiro, havia outro problema: conseguir alguém disposto a gravá-lo.

Zé apresentou seu trabalho a diferentes produtores e executivos e ouviu várias recusas. A situação mudou quando chegou a Jairo Pires, diretor da CBS.

Ao ouvir “Avôhai”, Jairo teve uma reação diferente e decidiu apostar no artista.

Zé Ramalho gravou seu primeiro álbum solo em 1977. O disco, lançado em 1978, trazia músicas como “Avôhai”, “Chão de Giz”, “Vila do Sossego” e “A Dança das Borboletas”.

Era o fim daquela fase em que a principal batalha era simplesmente conseguir uma oportunidade para gravar.

Pouco depois, em 1979, viria A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, com “Admirável Gado Novo”, “Frevo Mulher”, “Garoto de Aluguel” e “Beira-Mar”.

Zé Ramalho já não era mais o estudante de Medicina tentando convencer uma gravadora.

Zé Ramalho, 77 anos

Hoje, 3 de outubro de 2026, Zé Ramalho completa 77 anos.

Sua história antes da fama ajuda a entender como referências aparentemente distantes acabaram convivendo dentro de sua música: Jovem Guarda, Beatles, Bob Dylan, cordel, viola, forró, psicodelia e a experiência de quem saiu da Paraíba disposto a tentar viver das próprias canções.

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