Um ano sem Lô Borges: o garoto que revolucionou a MPB

No dia 2 de novembro de 2025, a música brasileira perdeu um de seus maiores compositores. Lô Borges morreu aos 73 anos, em Belo Horizonte, deixando uma obra que continua sendo descoberta e admirada por diferentes gerações. Neste Dia de Finados, quando sua morte completa um ano, lembramos a trajetória de um artista que entrou para a história da MPB ainda muito jovem.

Aos 20 anos, Lô já havia participado de dois discos fundamentais da música brasileira. Um deles, Clube da Esquina, tornou-se um dos álbuns mais celebrados do país. O outro, conhecido como Disco do Tênis, quase fez o compositor abandonar a carreira. Entre amizades, experiências musicais e algumas decisões surpreendentes, sua história ajuda a entender uma das épocas mais importantes da nossa música.

De Belo Horizonte para a história da música brasileira

Salomão Borges Filho nasceu em 10 de janeiro de 1952, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Era um dos 11 filhos de uma família em que a música estava presente no cotidiano. Desde cedo, aprendeu a tocar violão e desenvolveu uma verdadeira paixão pelos Beatles, uma de suas principais referências.

Na adolescência, chegou a formar a banda The Beavers, ao lado de Beto Guedes, do irmão Yé Borges e de Márcio Aquino. O grupo tocava músicas dos Beatles e fazia apresentações em Belo Horizonte.

Mas um dos acontecimentos mais importantes de sua juventude aconteceu nas escadarias do Edifício Levy, no centro da capital mineira, onde conheceu Milton Nascimento.

Milton era dez anos mais velho e já demonstrava um talento extraordinário. A amizade entre os dois logo se transformou em parceria musical e seria fundamental para o surgimento do Clube da Esquina.

Clube da Esquina: a revolução de uma geração

Na virada dos anos 1960 para os 1970, uma turma de jovens músicos de Belo Horizonte começou a construir algo que mudaria definitivamente a história da MPB.

Além de Lô Borges e Milton Nascimento, aquele universo reunia nomes como Márcio Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Toninho Horta e Wagner Tiso.

Os encontros no bairro Santa Tereza, especialmente na região da esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, ajudaram a dar identidade ao movimento.

A música que surgiu dessa convivência reunia o rock dos Beatles, o jazz, a bossa nova, a psicodelia e as tradições brasileiras. Tudo isso em um momento em que o país vivia sob a ditadura militar e muitos artistas buscavam novas maneiras de se expressar.

Em 1972, o movimento ganhou seu registro mais importante: o álbum duplo Clube da Esquina, assinado por Milton Nascimento e Lô Borges.

A gravadora inicialmente resistiu à participação de Lô, considerado jovem demais e ainda desconhecido do grande público. Milton, porém, fez questão de mantê-lo no projeto.

O resultado deu razão ao cantor. Lô participou da composição de oito das 21 faixas do álbum, incluindo clássicos como O Trem Azul, Tudo Que Você Podia Ser, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo e Paisagem da Janela.

Mais de cinco décadas depois, Clube da Esquina permanece como uma das grandes obras da música popular brasileira.

O Disco do Tênis e a vontade de abandonar tudo

O ano de 1972 ainda reservaria outro capítulo importante para Lô Borges.

Impressionada com seu talento, a gravadora o convidou para gravar um álbum solo. Havia apenas um problema: Lô não tinha nenhuma música pronta.

Depois de dedicar suas composições ao Clube da Esquina, precisou criar um repertório praticamente do zero, em um prazo extremamente curto.

Com a ajuda de Márcio Borges e de vários amigos músicos, conseguiu compor e gravar 15 faixas. O resultado foi Lô Borges, álbum que ficou conhecido como Disco do Tênis, graças à fotografia de um velho par de tênis na capa.

O disco apresentava uma sonoridade experimental, com canções curtas, guitarras, harmonias pouco convencionais e referências ao rock psicodélico.

Mas a experiência não foi nada tranquila.

Esgotado pela pressão da gravadora e insatisfeito com o resultado, Lô chegou a rejeitar o álbum durante décadas. Não queria mais viver sob as exigências da indústria fonográfica.

Depois das gravações, decidiu deixar o Rio de Janeiro e viajar pelo Brasil. Passou por Porto Alegre e chegou à Bahia de carona, vivendo por algum tempo como hippie.

O que parecia uma ruptura acabou se tornando uma das histórias mais curiosas de sua carreira. Anos depois, o álbum que tanto incomodava seu criador seria reconhecido como uma das grandes obras experimentais da música brasileira.

O retorno e a influência sobre novas gerações

Após um período afastado dos estúdios, Lô voltou a participar de gravações em 1978, no álbum Clube da Esquina 2. No ano seguinte, lançou seu segundo disco solo, A Via Láctea.

Durante as décadas seguintes, continuou compondo e gravando, embora tenha vivido outros períodos de menor exposição.

Nos anos 2000, sua música voltou a alcançar um público mais amplo. Em 2003, participou da composição de Dois Rios, parceria com Samuel Rosa e Nando Reis que se tornou um dos grandes sucessos do Skank.

O reconhecimento de sua obra também ultrapassou as fronteiras brasileiras.

Em 2018, Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys, citou a música Aos Barões, do Disco do Tênis, como uma das referências para a criação de Tranquility Base Hotel & Casino.

A revelação surpreendeu o próprio Lô, que ainda não conhecia profundamente o trabalho da banda britânica. Depois de ouvir seus discos, acabou se tornando admirador de Alex Turner.

Era mais uma demonstração da dimensão que sua música havia alcançado. Aquele jovem compositor mineiro dos anos 1970 continuava influenciando artistas décadas depois.

Lô Borges continuou criando até o fim da vida

Ao contrário de muitos artistas de sua geração, Lô Borges manteve uma produção intensa nos últimos anos.

Entre 2019 e 2025, lançou sete álbuns de músicas inéditas, trabalhando com diferentes parceiros e mantendo viva sua vontade de compor.

Seu último lançamento em vida foi Céu de Giz, gravado com Zeca Baleiro e lançado em agosto de 2025.

Em 17 de outubro daquele ano, Lô foi internado em Belo Horizonte após uma intoxicação medicamentosa acidental. Seu estado de saúde se agravou e, na noite de 2 de novembro de 2025, morreu em decorrência de falência múltipla de órgãos.

Mesmo depois de sua partida, novas gravações continuaram chegando ao público. Em junho de 2026, foi lançado A Estrada, álbum póstumo com dez canções inéditas e composições desenvolvidas em parceria com seu irmão Márcio Borges.

Um ano sem Lô Borges, uma obra que continua viva

Lô Borges tinha apenas 20 anos quando ajudou a mudar os rumos da música brasileira. Sua trajetória, porém, não se resume à juventude ou à importância do Clube da Esquina.

Ele foi um compositor que nunca deixou de buscar novas possibilidades para suas canções, que preferiu se afastar da indústria a abrir mão de sua liberdade e que continuou criando música até os últimos meses de vida.

Sua obra permanece presente nas gravações de outros artistas, nos discos que continuam sendo redescobertos e nas canções que se tornaram parte da nossa história.

Um ano depois de sua morte, o Brasil segue ouvindo Lô Borges. E há muita música dele para as próximas gerações descobrirem.

E pra você, qual é a maior obra-prima de Lô Borges? O Trem Azul, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, Paisagem da Janela ou alguma outra? Conta pra gente nos comentários.

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