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Hoje, 7 de setembro de 2026, Mart’nália completa 61 anos. E embora seu nome esteja ligado desde o nascimento a uma das famílias mais importantes do samba brasileiro, sua trajetória mostra que ser filha de Martinho da Vila foi apenas o ponto de partida.
Cantora, compositora, percussionista, instrumentista e atriz, Mart’nália construiu uma carreira própria, atravessou fronteiras, trabalhou com alguns dos maiores nomes da música brasileira e se tornou uma das vozes mais reconhecíveis do samba contemporâneo.
Uma infância cercada pelo samba
Mart’nália Mendonça Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1965, filha de Martinho da Vila e da cantora Anália Mendonça. Seu próprio nome nasceu da junção dos nomes dos pais.
Música, portanto, nunca foi exatamente uma descoberta para Mart’nália. Era parte da rotina.
Ainda criança, acompanhava o pai nas rodas de samba e cresceu em uma casa frequentada por artistas. Ela já contou, por exemplo, que conviveu com nomes como Clara Nunes e João Donato ainda na infância.
Foi nesse ambiente que começou a cantar, tocar e entender o samba não apenas como música, mas como uma forma de vida.
Aos 16 anos, iniciou profissionalmente sua carreira fazendo backing vocal em shows e discos do pai, ao lado dos irmãos.
Encontrando o próprio caminho
Ter Martinho da Vila como pai poderia facilmente transformar qualquer trajetória artística em uma comparação permanente. Mart’nália, porém, foi construindo seu espaço aos poucos.
Passou pelos circuitos de bares e pequenas casas de show do Rio de Janeiro, trabalhou como percussionista, integrou o grupo Batacotô e também acompanhou Ivan Lins.
Seu primeiro disco saiu ainda nos anos 1980, mas foi principalmente a partir dos anos 2000 que sua carreira ganhou outra dimensão.
Em 2002, lançou Pé do Meu Samba, trabalho que se tornou um dos grandes pontos de virada de sua trajetória.
O disco teve direção artística de Caetano Veloso, que também escreveu especialmente para Mart’nália a faixa que dá nome ao álbum.
Era uma artista que vinha de uma família famosa, mas que começava a ser reconhecida por aquilo que fazia quando pegava o microfone.
Caetano, Bethânia, Djavan e uma carreira cheia de encontros
Poucos artistas podem olhar para a própria discografia e encontrar tantos nomes fundamentais da música brasileira envolvidos diretamente em seus trabalhos.
Depois de Caetano Veloso em Pé do Meu Samba, foi a vez de Maria Bethânia assumir a direção artística de Menino do Rio, lançado em 2006.
O álbum trouxe músicas de Caetano, Luiz Melodia, Ana Carolina, Guilherme Arantes e outros compositores, além de canções da própria Mart’nália.
Anos depois, Djavan comandaria a produção de Não Tente Compreender, lançado em 2012.
Sua história também cruza com Chico Buarque, Gilberto Gil, Zélia Duncan, Luiz Melodia, Moska, Arlindo Cruz, Alcione, Beth Carvalho e muitos outros.
Esses encontros ajudam a mostrar o lugar que Mart’nália conquistou dentro da música brasileira.
De Vila Isabel para o mundo
O samba de Mart’nália não ficou restrito ao Rio de Janeiro.
Ao longo da carreira, ela realizou apresentações e turnês pela Europa, África, Estados Unidos e outros lugares do mundo.
Cantou no Carnegie Hall, em Nova York, passou pelo Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, e levou sua música diversas vezes para países africanos.
Essa relação com o continente ganhou um registro especial em Mart’nália em África Ao Vivo, projeto gravado a partir de apresentações e encontros realizados em lugares como Angola e Moçambique.
A ligação com África também reforçou algo que sempre esteve presente em sua música: a relação entre o samba brasileiro e suas raízes africanas.
Dois Grammys Latinos
O reconhecimento internacional também chegou na forma de prêmios.
Em 2017, Mart’nália venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode com + Misturado.
Dois anos depois, repetiu a conquista com Mart’nália Canta Vinicius de Moraes, trabalho dedicado à obra de Vinicius.
São dois Grammys em uma discografia que nunca pareceu preocupada em seguir uma fórmula específica.
Mart’nália sempre transitou entre samba, MPB, pop e outras referências com bastante naturalidade.
Uma artista que prefere fazer as coisas do próprio jeito
Talvez uma das características mais interessantes de Mart’nália esteja fora dos discos.
Ela nunca pareceu muito interessada em construir aquela imagem perfeitamente calculada que costuma acompanhar artistas com décadas de carreira.
Fala o que pensa, admite quando não gosta de alguma coisa e trata a própria trajetória com uma leveza pouco comum.
Quando lançou Pagode da Mart’nália, em 2024, por exemplo, não teve problema em admitir que inicialmente não era exatamente fã do pagode romântico dos anos 1990 que formava o repertório do projeto.
Em vez de inventar uma narrativa promocional bonita, simplesmente contou como as coisas aconteceram.
Essa espontaneidade também ajuda a explicar sua música.
Mart’nália nunca pareceu interessada em provar que pertence ao samba. Ela simplesmente pertence.
Pai e filha novamente no mesmo palco
Em 2026, Mart’nália voltou a dividir uma turnê inteira com Martinho da Vila no espetáculo Pai e Filha.
A imagem tem um significado especial.
Foi ao lado do pai que ela começou profissionalmente, ainda adolescente. Mais de quatro décadas depois, os dois voltam a dividir o palco em outro momento da vida e da carreira.
A diferença é que agora ninguém precisa explicar quem é Mart’nália.
O sobrenome continua sendo parte importante de sua história, assim como Vila Isabel, as rodas de samba da infância e tudo aquilo que aprendeu com Martinho.
Mas a carreira que veio depois pertence a ela.
Aos 61 anos, Mart’nália chega ao aniversário com uma discografia extensa, dois Grammys Latinos, passagens por alguns dos grandes palcos do mundo e uma identidade artística que nunca precisou imitar ninguém.
Filha de Martinho da Vila, sim. Mas muito além disso.

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