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No dia em que faria 74 anos, lembramos a trajetória do fundador do Tutti Frutti, parceiro de Rita Lee e autor de um dos solos mais marcantes da música brasileira.
Há solos que apenas ocupam alguns segundos de uma gravação. Outros se tornam tão importantes quanto a própria letra. É o caso da guitarra que encerra “Ovelha Negra”, clássico lançado por Rita Lee em 1975 no álbum Fruto Proibido.
O homem por trás daquele momento era Luiz Sérgio Carlini, guitarrista, compositor e diretor musical que ajudou a construir a identidade do rock brasileiro. Neste 31 de agosto de 2026, Carlini faria 74 anos. É o primeiro aniversário do músico desde sua morte, em 7 de maio, aos 73 anos.
Sua história, porém, não cabe apenas naquele solo. Carlini participou de centenas de gravações, fundou o Tutti Frutti, esteve ao lado de grandes nomes da nossa música e criou uma forma de tocar reconhecida logo nos primeiros segundos.
Da Pompeia para o rock brasileiro
Luiz Carlini nasceu em 31 de agosto de 1952, na cidade de São Paulo, e cresceu no bairro da Pompeia. Naquele período, a região era um dos pontos mais importantes da cena roqueira paulistana. Os Mutantes estavam por perto, assim como integrantes do Made in Brazil e outros jovens que começavam a descobrir as possibilidades da guitarra elétrica.
Carlini conheceu Sérgio Dias ainda criança e se tornou amigo dos integrantes dos Mutantes. Costumava acompanhá-los e ajudava a carregar os equipamentos da banda, numa época em que a função de roadie praticamente não existia no Brasil. Foi Sérgio quem primeiro o incentivou a tocar guitarra.
Antes de chegar aos grandes palcos, Carlini já observava de perto uma geração que mudaria a música brasileira. Sua primeira banda foi a Lisergia, formada no começo dos anos 1970. Pouco depois, esse grupo seria parte de um encontro decisivo para a história do nosso rock.
O nascimento do Tutti Frutti
Quando Rita Lee deixou os Mutantes, em 1972, iniciou uma breve parceria com Lúcia Turnbull nas Cilibrinas do Éden. O projeto tinha uma proposta mais acústica, mas Rita logo percebeu que precisava de uma banda para dar mais peso às apresentações.
Carlini e os músicos da Lisergia estavam próximos e acabaram se juntando à cantora. Em 1973, o grupo passou a se chamar Tutti Frutti, nome escolhido a partir do espetáculo criado para apresentar a nova fase de Rita.
Entre 1974 e 1978, a parceria rendeu quatro discos de estúdio: Atrás do Porto Tem uma Cidade, Fruto Proibido, Entradas e Bandeiras e Babilônia. A guitarra de Carlini foi fundamental para estabelecer a sonoridade direta e roqueira que marcou esse período.
Ele também participou da criação de músicas importantes. A parceria mais conhecida com Rita Lee é “Agora Só Falta Você”, mas os dois também assinaram canções como “Lá Vou Eu”, “Com a Boca no Mundo” e “Corista de Rock”.
Como nasceu o solo de “Ovelha Negra”
Fruto Proibido, lançado em 1975, se tornou o grande marco da parceria entre Rita Lee, Tutti Frutti e Luiz Carlini. O disco reúne faixas como “Esse Tal de Roque Enrow”, “Agora Só Falta Você” e “Luz del Fuego”, mas um de seus momentos mais lembrados aparece justamente no final de “Ovelha Negra”.
Na estrutura original, a música terminaria apenas com o volume diminuindo. Carlini ouvia aquela passagem e sentia que faltava alguma coisa. Pensou tanto em uma guitarra para o encerramento que acabou sonhando com a melodia e acordou assobiando.
Quando apresentou a ideia no estúdio, ninguém demonstrou muito interesse. A canção já era considerada pronta, e o guitarrista ouviu mais de uma recusa antes de conseguir mostrar o que havia imaginado. Durante uma pausa para o café, o produtor Andy Mills finalmente pediu que ele tocasse.
Carlini desceu ao estúdio e registrou o solo em uma única tomada. Quando voltou à sala de mixagem, todos perceberam que a música havia encontrado o final que precisava. O guitarrista ainda quis repetir a gravação com outro ajuste de timbre, mas Andy Mills retirou a fita da máquina e encerrou a sessão. A primeira tomada era a definitiva.
O solo havia surgido em um sonho, enfrentado resistência para ser gravado e, em poucos minutos, se transformado em parte inseparável da canção.
Uma guitarra feita para servir à música
Luiz Carlini tinha técnica para assumir o centro de qualquer gravação, mas não tratava a guitarra como uma disputa de virtuosismo. Para ele, um solo precisava fazer parte da música e contribuir para o que ela queria dizer.
Sua maneira de tocar reunia a força do blues-rock e do hard rock com solos melódicos, bends expressivos e frases fáceis de reconhecer. Carlini sabia ser agressivo quando a música pedia, mas também entendia o valor do silêncio, do espaço e de uma nota colocada no momento certo.
A Gibson Les Paul se tornou uma de suas principais marcas. Foi com uma Les Paul Deluxe de 1968 que ele gravou o solo de “Ovelha Negra”, criando um timbre que permanece ligado à sua identidade.
Essa combinação de força e sentimento fez de Carlini uma referência para diferentes gerações de guitarristas. Músicos como Frejat, Andreas Kisser, Kiko Loureiro e Pepeu Gomes reconheceram publicamente sua importância para a guitarra brasileira.
Muito além de “Ovelha Negra”
Depois do fim da parceria de Rita Lee com o Tutti Frutti, Carlini manteve a banda e continuou trabalhando dentro e fora dos estúdios. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, participou de mais de 400 gravações.
Seu nome aparece em trabalhos ligados a artistas e bandas como Erasmo Carlos, Titãs, Barão Vermelho, Camisa de Vênus, Marcelo Nova, Lobão, Catto e Guilherme Arantes. Erasmo gravou a composição “Rádio Patroa” no álbum Abra Seus Olhos, de 1986, e Carlini integrou o Camisa de Vênus durante a retomada do grupo nos anos 1990.
Com Guilherme Arantes, a relação musical vinha desde 1980. Carlini gravou discos, dividiu palcos e permaneceu ao lado do cantor durante décadas. Em seus últimos meses, fazia parte da banda da turnê “50 Anos-Luz”, prova de que seguia em plena atividade.
Em 2012, foi incluído pela Rolling Stone Brasil entre os 30 maiores ícones brasileiros da guitarra e do violão. Sua trajetória também ganhou o documentário Luiz Carlini: Guitarrista de Rock, dirigido por Luiz Carlos Lucena e lançado nos cinemas em 2023.
O primeiro 31 de agosto sem Luiz Carlini
Luiz Carlini morreu em 7 de maio de 2026, em São Paulo. A notícia foi divulgada no dia seguinte, quando o mundo da música passou a reunir lembranças de um artista admirado tanto pelo talento quanto pela generosidade nos bastidores.
Neste primeiro 31 de agosto sem Carlini, sua guitarra continua presente nos discos, nas lembranças de quem o viu tocar e em cada nova pessoa que descobre o final de “Ovelha Negra”. Ele não deixou apenas um solo histórico. Deixou riffs, composições, arranjos e uma maneira própria de entender o instrumento.
A melhor homenagem é voltar às gravações e ouvir com atenção tudo o que sua guitarra dizia.
Além de “Ovelha Negra”, qual música com Luiz Carlini mais marcou você? Conte para a gente nos comentários.

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