Como Flávio José se tornou o Rei do Xote

Neste 1º de setembro de 2026, Flávio José completa 75 anos. Poucos artistas brasileiros chegam a essa idade tão identificados com um ritmo quanto ele. Basta ouvir os primeiros versos de uma canção para reconhecer aquela voz firme, limpa e carregada de sentimento. Quando a sanfona entra, a ligação com o Nordeste fica ainda mais evidente.

Chamado de Rei do Xote, Flávio José construiu uma carreira que não nasceu de uma moda nem de uma estratégia de mercado. Sua história começou ainda na infância, em Monteiro, no Cariri paraibano, diante de Luiz Gonzaga. Cresceu entre músicos, aprendeu a tocar muito cedo e passou décadas defendendo o forró tradicional, mesmo quando a indústria apontava para outros caminhos.

Foi dessa combinação de talento, paciência e fidelidade às próprias raízes que nasceu um dos maiores nomes da música nordestina.

O menino de Monteiro que se encantou por Luiz Gonzaga

Flávio José Marcelino Remígio nasceu em 1º de setembro de 1951, na cidade de Monteiro, na Paraíba. Descendente de uma família de músicos, teve contato com a música desde muito pequeno, mas um encontro foi decisivo para definir o rumo de sua vida.

Segundo o próprio artista, ele tinha apenas cinco anos quando viu Luiz Gonzaga se apresentar em cima de um caminhão. A imagem do Rei do Baião tocando sanfona ficou gravada em sua memória. Depois daquele dia, começou a pedir aos pais um instrumento.

Aos sete anos, já se aventurava pelas teclas. Aos dez, tocava e cantava acompanhado por uma sanfona de 24 baixos, animando pequenas festas na região. O que parecia apenas a diversão de uma criança começava a revelar um músico com ouvido, disciplina e uma ligação muito natural com o repertório de sua terra.

Luiz Gonzaga foi a primeira grande referência, mas não a única. Com o tempo, Flávio José também passou a ouvir Marinês, Trio Nordestino e Dominguinhos. Esses artistas ajudaram a formar sua maneira de compreender o forró, não apenas como música para dançar, mas como expressão da vida, da memória e da identidade do povo nordestino.

Dos primeiros grupos à vida dividida com o banco

Antes de seguir carreira solo, Flávio José percorreu um caminho comum a muitos músicos do interior. Formou um trio mirim com dois irmãos, integrou a Orquestra Marajoara, de Sertânia, e depois participou do grupo Os Tropicais de Monteiro, uma banda de baile que ajudou a ampliar sua experiência nos palcos.

Ao mesmo tempo, precisava construir uma vida financeiramente estável. Ainda jovem, estudou para prestar concurso e ingressou no Banco do Brasil. Durante muitos anos, dividiu a rotina de bancário com ensaios, viagens e apresentações.

Essa vida dupla não interrompeu sua formação musical. Pelo contrário, fez com que sua carreira fosse construída com paciência, longe da pressa por um sucesso imediato. Flávio José sabia o tipo de música que desejava fazer e preferiu esperar o momento certo a gravar qualquer coisa apenas para aparecer.

Em 1977, lançou seu primeiro disco solo, Só Confio em Tu. O álbum abriu uma discografia que cresceria nas décadas seguintes e colocaria sua voz entre as mais importantes do forró brasileiro.

A decisão de permanecer fiel ao forró

O forró mudou muito ao longo das décadas. Novos instrumentos, formatos de banda, estratégias comerciais e tendências de mercado transformaram o gênero. Flávio José acompanhou essas mudanças sem abandonar a base musical que conheceu na infância.

Seu trabalho permaneceu ligado ao xote, ao baião e ao forró tradicional. Em vez de correr atrás de sucessos passageiros, escolheu repertórios que falavam de amor, saudade, seca, esperança, estrada, festas e vida no interior. Suas gravações podiam ser românticas e populares sem perder a ligação com o lugar de onde vieram.

Essa coerência virou uma das principais marcas de sua carreira. Flávio não tratava o forró como fantasia folclórica nem como produto fabricado para uma época do ano. Cantava aquela música porque ela fazia parte de sua história e da história de seu povo.

Também foi fundamental sua relação com os compositores nordestinos. Ao longo dos anos, gravou obras de nomes como Maciel Melo, Petrúcio Amorim, Accioly Neto e Nando Cordel, ajudando essas canções a alcançar públicos muito maiores. Seus arranjos costumavam ser diretos, abrindo espaço para que a letra, a melodia, a sanfona e a interpretação conduzissem a música.

Uma voz com “uma lágrima na garganta”

A sanfona é uma parte central da identidade de Flávio José, mas sua voz foi o elemento que o tornou imediatamente reconhecível.

Afinada, potente e clara, ela transita pelas melodias com uma naturalidade rara. Por isso, o cantor também ficou conhecido como “o tenor das caatingas”. O apelido traduz sua extensão vocal, mas não explica sozinho a força de suas interpretações.

Flávio José canta como quem conhece por dentro as histórias que apresenta. Mesmo quando interpreta canções de outros autores, existe verdade em sua maneira de pronunciar cada verso. Nando Cordel encontrou uma definição bonita para essa característica ao dizer que Flávio tem “uma lágrima na garganta”.

É justamente esse equilíbrio entre força e emoção que fez dele um intérprete tão importante da música romântica nordestina. Sua voz consegue conduzir tanto a alegria de um forró quanto a saudade de uma canção de amor sem parecer forçada.

Os discos que construíram sua trajetória

Depois do primeiro álbum, Flávio José continuou gravando e ampliando seu repertório. A partir dos anos 1990, sua discografia entrou em uma fase especialmente importante, com trabalhos como Recado, Cheiro de Forró, Caboclo Sonhador, Terra Prometida, Nordestino Lutador, Tareco e Mariola, Filho do Dono e A Poeira e a Estrada.

Os próprios títulos revelam muito sobre o universo do artista. O amor divide espaço com a vida sertaneja, a luta do povo, as lembranças e a relação com a terra. Flávio José se tornou uma espécie de narrador musical do Nordeste, cantando personagens, sentimentos e experiências reconhecíveis para quem cresceu na região, mas capazes de emocionar ouvintes de qualquer parte do país.

Foi nesse período que sua obra conquistou uma projeção ainda maior. “Que Nem Vem Vem”, composição de Maciel Melo, apareceu como um de seus primeiros grandes sucessos. Depois vieram canções que se tornaram inseparáveis de sua voz, como “Caboclo Sonhador”, “Caia por Cima de Mim”, “Espumas ao Vento”, “Lembrança de um Beijo” e “Filho do Dono”.

Entre todas elas, uma ganharia um lugar especial na história do forró.

Como “Meu Mungunzá” virou “Tareco e Mariola”

Em 1994, Flávio José recebeu a indicação de uma música composta por Petrúcio Amorim. A canção se chamava Meu Mungunzá. Depois de procurar saber quem era o compositor, Flávio foi encontrá-lo no Recife e conseguiu autorização para gravá-la.

O cantor criou um novo arranjo e incluiu a música em seu repertório. No ano seguinte, durante uma apresentação em Manaus, algumas pessoas se aproximaram no fim do show pedindo que ele cantasse novamente “aquela música do tareco e mariola”.

O público não havia guardado o título original, mas sabia exatamente qual trecho queria ouvir. Flávio percebeu que o refrão já havia batizado a música na memória das pessoas. Com a autorização de Petrúcio Amorim, Meu Mungunzápassou a se chamar “Tareco e Mariola”.

A canção se transformou em um dos maiores sucessos de sua carreira e em um clássico das festas nordestinas. Sua letra fala de infância, afeto e lembranças simples, imagens que encontram eco em diferentes gerações. Na voz de Flávio José, a composição ganhou a mistura exata de alegria e saudade que marca seus melhores trabalhos.

Por que Flávio José virou o Rei do Xote

O título de Rei do Xote não surgiu apenas porque Flávio José acumulou músicas conhecidas. Ele representa a maneira como o artista passou a ser reconhecido pelo público dentro de uma tradição que ajudou a preservar.

O xote pede balanço, delicadeza e interpretação. É música para dançar junto, mas também para escutar a história que está sendo contada. Flávio dominou esses elementos como poucos. Sua sanfona nunca disputa espaço com a voz, e sua voz nunca esconde a composição. Tudo trabalha a favor da canção.

Ao mesmo tempo, ele desenvolveu um estilo próprio sem romper com os mestres que vieram antes. Sua música carrega a herança de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, mas não tenta copiá-los. Flávio encontrou sua identidade no modo de cantar, na escolha do repertório e na defesa permanente dos compositores e ritmos nordestinos.

Foi assim que o menino que começou com um pequeno fole em Monteiro se tornou uma referência nacional. O reconhecimento não veio de uma única gravação, mas da soma de décadas de trabalho consistente.

O forró como memória e resistência

A importância de Flávio José também aparece quando se discute o espaço dedicado ao forró dentro das próprias festas juninas. Com o crescimento dos grandes eventos e a presença cada vez maior de artistas de outros gêneros, os nomes ligados à tradição nordestina muitas vezes precisam disputar espaço em celebrações que nasceram ao redor de sua música.

Flávio se tornou uma das vozes mais firmes nesse debate. Sua defesa do forró não significa rejeitar outras expressões musicais, mas lembrar que o São João possui uma história, uma sonoridade e uma relação profunda com a vida nordestina.

Quando ele sobe ao palco, portanto, o público não assiste apenas a mais uma atração. Encontra uma obra que preserva modos de falar, histórias, sentimentos e ritmos transmitidos de geração em geração. Sua trajetória ajuda a entender que valorizar o forró também é proteger uma parte fundamental da cultura brasileira.

Aos 75 anos, o xote continua vivo em sua voz

Flávio José chega aos 75 anos como um dos principais elos entre os mestres que consolidaram o forró e as novas gerações que mantêm essa música viva. Sua carreira prova que é possível alcançar multidões sem abandonar a própria identidade.

Do menino que viu Luiz Gonzaga tocar ao artista consagrado como Rei do Xote, existe uma linha que nunca foi rompida. É a ligação com Monteiro, com o Cariri, com a sanfona e com as histórias de sua gente.

Se muitas de suas músicas continuam emocionando décadas depois, talvez seja porque Flávio José sempre acreditou em algo simples: “o que é bom é para sempre”.

E o xote brasileiro seria muito menor sem sua voz.

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