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Carangas Cultural ©
Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
Projeto cultural independente.
Quando Construção foi lançado em 1971 pela Philips, Chico Buarque já era um dos nomes mais respeitados da música brasileira, mas ainda não tinha traduzido esse prestígio em vendas. Seus discos anteriores giravam em torno de 30 a 40 mil cópias, número que incomodava a gravadora, especialmente considerando o impacto cultural que ele já tinha desde “A Banda”.
Quem estava à frente dessa mudança era Roberto Menescal, então diretor artístico da Philips. A missão era clara: fazer um disco que mantivesse o nível artístico de Chico, mas que finalmente alcançasse escala comercial.
O contexto político e o retorno do exílio
O projeto começa a ganhar forma logo após o retorno de Chico ao Brasil, em 1970, depois de cerca de 14 meses de autoexílio na Itália. O país vivia o período mais duro da ditadura militar, ainda sob os efeitos do AI-5, com censura ativa sobre letras e produções culturais.
Nesse ambiente, artistas como Chico eram observados com mais atenção. Letras passavam por avaliação prévia e qualquer ambiguidade podia ser interpretada como crítica ao regime. Esse cenário influencia diretamente o disco, que passa a operar com uma linguagem menos explícita, mas estruturalmente crítica.
A produção: Rogério Duprat e a expansão sonora
Para viabilizar um disco maior, Menescal chama Rogério Duprat, figura central na sonoridade da Tropicália. A proposta era sair do formato mais enxuto da MPB tradicional e construir um álbum com maior densidade sonora.
A decisão foi montar uma orquestra com cerca de 60 músicos, algo incomum naquele momento. Isso exigia mais tempo de estúdio, maior investimento e uma organização técnica mais complexa.
Além disso, os estúdios já trabalhavam com gravação multipista, tecnologia recente no Brasil, que permitia separar instrumentos em diferentes canais. Isso dava mais controle na mixagem, mas também aumentava o risco de erro em processos mais complexos.
O erro técnico: quando o disco desaparece
Durante a fase de mixagem, acontece o ponto mais crítico de toda a produção.
Segundo relato do próprio Menescal, um erro operacional apagou a gravação da orquestra. Não foi uma falha pequena. Aquilo era a base de várias faixas do disco.
Sem a orquestra, o projeto deixava de existir como havia sido concebido.
Naquele momento, havia a possibilidade real de abandonar parte do disco ou reduzir drasticamente o arranjo. Mas a equipe decidiu seguir pelo caminho mais difícil.
A reconstrução: refazer como decisão estratégica
A solução foi regravar tudo. Isso significou reunir novamente os músicos, refazer os arranjos e reorganizar o orçamento do projeto.
Menescal chegou a redistribuir recursos de outros projetos da gravadora para viabilizar essa nova gravação. Em termos práticos, Construção deixou de ser apenas um disco planejado e passou a ser um disco reconstruído.
Esse processo teve impacto direto no resultado final. A segunda gravação trouxe mais controle e acabamento, o que ajuda a explicar a densidade sonora do álbum.
Participações e músicos envolvidos
O disco também contou com músicos importantes da cena brasileira.
O grupo MPB-4 participa em vocais em várias faixas, reforçando a estrutura harmônica do álbum.
Em “Olha Maria”, o piano é executado por Tom Jobim, uma das figuras centrais da bossa nova.
Já em “Samba de Orly”, há a participação de Toquinho, parceiro frequente de Chico, e também de Vinicius de Moraes, que contribui na composição.
Essas presenças ajudam a situar o disco dentro de uma rede maior da música brasileira naquele período.
Censura e estratégias de linguagem
Durante esse processo, Chico já enfrentava problemas com a censura. Um exemplo direto é a música “Apesar de Você”, lançada pouco antes, que foi inicialmente liberada e depois proibida quando o regime percebeu seu conteúdo crítico.
Esse histórico fez com que Construção fosse acompanhado com mais atenção pelos censores. Em algumas músicas, palavras precisaram ser alteradas para evitar bloqueios.
A estratégia do disco passa a ser menos direta e mais estrutural. A crítica não aparece apenas no que é dito, mas na forma como as músicas são construídas.
A música “Construção” e sua engenharia formal
A faixa-título é o ponto central do álbum.
A música narra o último dia de um operário, mas o diferencial está na forma. Os versos são estruturados com palavras proparoxítonas no final, e a cada repetição essas palavras mudam de posição.
Isso cria uma repetição que não é estática. A estrutura se mantém, mas o sentido se desloca.
O efeito é mecânico, quase automático, acompanhando a lógica do trabalho que a música descreve. A composição não apenas fala sobre alienação, ela reproduz esse processo formalmente.
O resultado: mudança de escala e consolidação
Quando o disco é lançado, ele cumpre o objetivo da gravadora. Amplia o alcance de Chico Buarque e melhora seu desempenho comercial.
Mais do que isso, consolida uma nova fase na carreira do artista, mais estruturada em termos de arranjo, produção e linguagem.
Construção passa a ser referência dentro da MPB não apenas pelas músicas, mas pelo modo como foi feito.
O que sustenta o disco até hoje
O que mantém Construção relevante não é apenas a qualidade das composições, mas o conjunto de fatores envolvidos.
O disco foi produzido sob pressão comercial, em um ambiente de censura, com tecnologia ainda em adaptação e atravessado por um erro técnico que quase inviabilizou o projeto.
O fato de ter sido refeito não é um detalhe de bastidor. É parte central do resultado.
O título deixa de ser apenas conceitual e passa a ser literal.
Construção é um disco que precisou ser construído mais de uma vez para existir.

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