![]()
Carangas Cultural ©
Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
Projeto cultural independente.
Neste 13 de setembro de 2026, Itamar Assumpção completaria 77 anos. Mais de duas décadas depois de sua morte, ainda é difícil encontrar uma palavra que dê conta do que ele fez. Cantor, compositor, baixista, arranjador, ator, performer, poeta. Todas servem, mas nenhuma resolve. A música de Itamar parece ter sido construída justamente contra essa necessidade de escolher uma definição. Ele atravessou o samba, o funk, o reggae, o rock, a poesia, o teatro e a música experimental sem pedir autorização para entrar ou permanecer em nenhum desses lugares.
Essa dificuldade de enquadrá-lo não é um problema para entender sua obra. É parte fundamental dela. Itamar passou a carreira recusando os caminhos que pareciam preparados de antemão para ele, inclusive aqueles que a indústria fonográfica costumava reservar aos artistas negros. Em vez de tentar se adaptar, criou uma linguagem própria, cercou-se de músicos igualmente inquietos e construiu uma discografia que continua soando estranha no melhor sentido da palavra.
Antes de São Paulo, vieram o batuque, o rádio e o teatro
Francisco José Itamar de Assumpção nasceu em Tietê, interior de São Paulo, em 13 de setembro de 1949. Passou parte da infância com os avós e cresceu próximo de uma vida musical que não dependia de conservatório ou formação acadêmica. O avô era músico de banda, os batuques faziam parte daquele ambiente e, mais tarde, quando se mudou para o Paraná para viver com os pais, Itamar também teve contato direto com os ritmos dos cultos religiosos frequentados pela família.
Muito do que aprenderia musicalmente veio da escuta. O rádio foi uma escola importante e Itamar aprendeu a tocar violão e baixo praticamente sozinho. O contrabaixo acabaria ocupando um lugar central na maneira como compunha e organizava suas músicas. Em vez de funcionar apenas como sustentação, o instrumento ganhava movimento, respondia à voz, criava tensão e ajudava a conduzir a narrativa das canções.
Antes de se entregar definitivamente à música, Itamar também passou pelo teatro. Essa experiência ajuda a entender uma característica que acompanharia toda a carreira: ele nunca tratou o palco como simples lugar para reproduzir as músicas dos discos. Corpo, roupa, personagem, voz e gesto faziam parte da apresentação. Quando Itamar cantava, havia sempre alguma coisa de encenação acontecendo junto.
São Paulo e uma geração que queria fazer diferente
Itamar chegou a São Paulo em 1973 disposto a viver de música. A cidade que encontrou também estava mudando. No fim daquela década e no começo dos anos 1980, uma geração de artistas começou a circular por espaços independentes, experimentar novas formas de composição e procurar alternativas ao caminho tradicional oferecido pelas grandes gravadoras.
Foi nesse ambiente que nomes como Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premeditando o Breque e Itamar passaram a ser associados ao que ficou conhecido como Vanguarda Paulista. O Teatro Lira Paulistana, em Pinheiros, tornou-se um dos principais pontos de encontro daquela cena, reunindo artistas que não formavam exatamente um movimento organizado, mas compartilhavam o desejo de produzir música por outros caminhos.
Itamar fazia parte daquela história, mas continuava sendo difícil confundi-lo com qualquer outra pessoa dali. Sua formação vinha do rádio, do teatro, dos batuques, da música negra brasileira, do contato com artistas de diferentes linguagens e de uma enorme capacidade de absorver referências sem simplesmente reproduzi-las. Quando seu primeiro trabalho apareceu, aquela mistura já tinha uma assinatura.
Nego Dito e uma estreia que não parecia com quase nada ao redor
Em Beleléu, Leléu, Eu, Itamar apresentou ao público um universo no qual música e personagem praticamente não podiam ser separados. Ali aparecia Benedito João dos Santos Silva Beleléu, o Nego Dito, personagem que carregava muito da teatralidade, da ironia e das tensões sociais que atravessariam sua obra.
As músicas não seguiam uma fórmula confortável. O baixo tinha enorme presença, as vozes se respondiam, frases faladas entravam no meio do canto e os arranjos pareciam mudar de direção quando o ouvinte começava a entender para onde estavam indo. Havia samba, rock, funk, reggae, ruído, poesia e uma relação evidente com o teatro. Não era uma mistura feita para demonstrar quantidade de referências. Tudo aquilo servia à linguagem que Itamar estava construindo.
A Isca de Polícia, banda que o acompanhou durante parte importante de sua carreira, era fundamental nesse processo. Os ensaios eram rigorosos e os arranjos podiam ser refeitos inúmeras vezes. A imagem de um artista simplesmente intuitivo e espontâneo não explica Itamar por inteiro. Por trás daquela liberdade existia trabalho minucioso, atenção ao ritmo, domínio do palco e uma preocupação constante com a forma que cada música deveria assumir.
Uma música que não precisava escolher um gênero
É tentador tentar explicar Itamar dizendo que ele misturava estilos. Isso é verdade, mas ainda diz pouco. O mais interessante é perceber que ele não parecia reconhecer a obrigação de escolher entre eles. Um samba podia carregar a agressividade do rock, uma linha de baixo podia lembrar funk, a voz podia abandonar a melodia e se aproximar da fala, enquanto o palco transformava tudo aquilo em teatro.
Sua relação com a tradição afro-brasileira também não significava permanecer preso a uma ideia convencional de música negra. Itamar carregava a memória dos batuques e do terreiro, mas também escutava Jimi Hendrix, dialogava com a poesia de Paulo Leminski e Alice Ruiz e trabalhava com músicos interessados em experimentação. Em vez de tratar essas referências como mundos separados, fazia todas elas coexistirem.
Isso também ajuda a entender por que sua música frequentemente era chamada de “difícil”. Não porque Itamar estivesse interessado em afastar o público, mas porque ele recusava simplificar aquilo que queria fazer para atender a uma expectativa comercial. Suas canções pediam atenção e, muitas vezes, desmontavam a estrutura que o ouvinte esperava encontrar.
O palco era parte da música
Quem conhece Itamar apenas pelos discos conhece uma parte enorme de sua obra, mas não conhece tudo. A presença de palco era tão importante quanto os arranjos. A passagem pelo teatro reaparecia na maneira de interpretar uma frase, movimentar o corpo, vestir-se, provocar a plateia ou assumir a personalidade de seus personagens.
A música não terminava quando a gravação estava pronta. No palco, ela podia mudar novamente. Os shows tinham uma dimensão visual e dramática que ajudava a transformar as canções em acontecimentos. Itamar não parecia interessado em separar cantor, ator e personagem. Tudo acontecia junto.
Essa característica também explica por que tantas fotografias suas parecem carregar uma história inteira. Os óculos, as roupas, os gestos e as expressões não eram detalhes periféricos. Faziam parte da maneira como ele construía sua presença artística e recusava qualquer ideia de neutralidade.
“Às próprias custas” não era apenas um bom título
A independência foi outra parte decisiva da trajetória de Itamar. Hoje, quando um artista pode gravar em casa e distribuir uma música pela internet, é fácil esquecer o peso que a palavra “independente” tinha nos anos 1980. Fazer um disco sem o suporte de uma grande gravadora significava lidar diretamente com gravação, fabricação, distribuição, divulgação e circulação.
Itamar fez isso quando havia poucas facilidades.
O título Às Próprias Custas S.A. resume bem aquela posição. A ironia era evidente, mas a realidade também. Quando sua música não se encaixava nas expectativas do mercado, ele continuava trabalhando. Houve uma passagem por grande gravadora, mas sua história permaneceu profundamente ligada aos circuitos independentes.
A questão ficava ainda mais complexa porque Itamar era um artista negro fazendo música experimental num mercado acostumado a trabalhar com classificações muito estreitas. Havia determinados lugares reservados ao sambista, ao cantor de soul, ao intérprete de música romântica. Itamar não demonstrava interesse em aceitar nenhum deles como limite. Queria trabalhar com samba, rock, funk, teatro, poesia e tudo o que fosse necessário para construir sua própria linguagem.
As Orquídeas do Brasil e uma carreira que continuou se transformando
Nos anos 1990, sua obra entrou em outra fase. Ao lado das Orquídeas do Brasil, banda formada por mulheres, Itamar lançou a trilogia Bicho de Sete Cabeças. A formação reforçava algo que já estava presente em seus trabalhos anteriores: as vozes femininas não apareciam apenas como acompanhamento. Elas dialogavam, respondiam e interferiam diretamente na estrutura das músicas.
Também foi um período em que outras facetas de Itamar ficaram ainda mais evidentes. A imagem do artista agressivo, urbano e provocador convivia com canções delicadas e parcerias com nomes como Alice Ruiz, Paulo Leminski, Alzira Espíndola e outros compositores. Sua obra começou a circular cada vez mais pelas vozes de intérpretes como Ney Matogrosso, Cássia Eller e Zélia Duncan.
Em 1998, veio Pretobrás: Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes?, pensado como o início de outra trilogia. Itamar já havia criado Nego Dito e agora surgia uma nova figura, associada a outro momento de sua vida e de sua criação. Mesmo enfrentando problemas de saúde nos anos seguintes, continuou compondo intensamente e deixou material suficiente para que sua obra continuasse crescendo depois de sua morte.
Uma obra que não terminou em 2003
Itamar Assumpção morreu em 12 de junho de 2003, aos 53 anos. A história de sua música, porém, não terminou ali. No ano seguinte foi lançado Isso Vai Dar Repercussão, parceria com Naná Vasconcelos, e mais tarde chegaram os outros volumes de Pretobrás. Sua discografia foi reorganizada, relançada e apresentada a novos públicos.
Também apareceram documentários, livros, pesquisas acadêmicas e os cadernos nos quais Itamar registrava letras, desenhos, poemas e ideias. Sua memória ganhou espaço no Museu Itamar Assumpção e numa estátua instalada na Penha, bairro paulistano onde viveu durante boa parte da vida.
Talvez o legado mais importante, porém, esteja na maneira como sua obra continua encontrando ouvintes e artistas que não viveram a época da Vanguarda Paulista. Muito do que parecia difícil de explicar nos anos 1980 se tornou familiar nas décadas seguintes: artistas trabalhando de maneira independente, misturando gêneros, criando personagens, tratando imagem e música como partes da mesma obra e recusando as divisões tradicionais da indústria.
Isso não significa que Itamar precise ser transformado no sujeito que “previu o futuro”. Seria outra maneira de reduzir uma trajetória muito maior. Sua importância não depende de ter antecipado tendências. Basta ouvir os discos hoje para perceber que existe ali uma música que continua funcionando por conta própria.
O artista que se recusou a caber
Talvez seja por isso que a frase faça tanto sentido: Itamar Assumpção foi um artista que se recusou a caber.
Não precisou escolher entre samba e rock, tradição e experimentalismo, música e teatro, ancestralidade e invenção. Também não aceitou que o mercado decidisse antecipadamente qual deveria ser o lugar de um artista negro. Quando encontrou portas estreitas demais para sua obra, preferiu continuar construindo do lado de fora.
Esse caminho custou caro. A independência que hoje pode parecer romântica também significou dificuldades de distribuição, divulgação e reconhecimento. Mas permitiu que Itamar preservasse algo que atravessa toda a sua discografia: a sensação de estar ouvindo alguém que sabia exatamente o que queria fazer, mesmo quando quase ninguém sabia onde colocar aquilo.
Neste 13 de setembro de 2026, Itamar completaria 77 anos. A melhor homenagem talvez não seja tentar finalmente encontrar uma definição capaz de explicá-lo. Depois de uma vida inteira escapando delas, seria estranho fazer isso agora.
Melhor colocar um disco para tocar.
E fica a pergunta: se você tivesse que apresentar Itamar Assumpção para alguém com uma única música, qual escolheria?

Descubra 75 discos que todo apaixonado por música brasileira deveria conhecer.
Um ebook com mais de 220 páginas reunindo histórias, curiosidades e álbuns que ajudam a compreender a riqueza da nossa música.








