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Carangas Cultural ©
Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
Projeto cultural independente.
Poucos artistas brasileiros viveram uma trajetória tão intensa quanto Wilson Simonal. Em pouco mais de uma década, ele saiu do anonimato para se transformar em um fenômeno nacional, lotando casas de espetáculo, comandando programas de televisão, vendendo milhares de discos e rivalizando em popularidade com Roberto Carlos. Seu talento era reconhecido por colegas, críticos e pelo público, que viam nele um cantor de voz incomparável e um dos maiores comunicadores que já passaram pelos palcos brasileiros.
Mas sua história também ficou marcada por um episódio que mudou completamente o rumo de sua carreira. A partir dos anos 1970, Simonal deixou de ser notícia pelos sucessos musicais e passou a ocupar espaço nas manchetes por causa de uma polêmica que o acompanharia até o fim da vida.
Mais de duas décadas após sua morte, sua obra voltou a despertar interesse. Livros, documentários, filmes e pesquisas ajudaram a reavaliar sua importância artística e a discutir, com mais distanciamento, um dos capítulos mais controversos da música brasileira.
Dos subúrbios do Rio ao estrelato
Wilson Simonal de Castro nasceu em 23 de fevereiro de 1938, no Rio de Janeiro. Filho de uma empregada doméstica e de um funcionário público, cresceu em uma época em que artistas negros raramente ocupavam posições de destaque na indústria cultural brasileira.
Ainda jovem, começou a cantar em boates e casas noturnas da zona sul carioca. Sua voz chamava atenção imediatamente. Grave, potente e extremamente afinada, tinha uma facilidade rara para improvisar, conversar com o público e transformar qualquer apresentação em espetáculo.
No início da década de 1960, integrou o grupo Dry Boys, experiência que abriu as portas para sua carreira profissional. Pouco depois gravou seu primeiro disco, Tem Algo Mais, iniciando uma trajetória que cresceria rapidamente.
O cantor que dominava qualquer palco
Na segunda metade dos anos 1960, Wilson Simonal já era um dos artistas mais populares do Brasil.
Seu talento ia muito além da voz. Simonal entendia o palco como poucos. Brincava com a plateia, improvisava, conduzia o público e transformava cada show em uma experiência coletiva.
Em uma época em que muitos cantores permaneciam praticamente imóveis diante do microfone, ele cantava, dançava, conversava e fazia milhares de pessoas participarem do espetáculo.
Essa habilidade fez dele um dos maiores showmen da história da música brasileira.
A pilantragem: o balanço que virou marca registrada
Ao lado do pianista César Camargo Mariano e do trio Som Três, Simonal ajudou a consolidar um estilo que ficou conhecido como pilantragem.
O termo não tinha relação com criminalidade. Era uma maneira descontraída de definir uma mistura de samba, soul, jazz, bossa nova, pop e música negra norte-americana, sempre marcada por muito balanço, humor e improvisação.
Enquanto parte da MPB seguia caminhos mais tradicionais e a Jovem Guarda conquistava o público jovem, Simonal ocupava um espaço próprio.
Seu repertório transitava naturalmente entre diferentes gêneros, sem perder identidade.
Os sucessos que marcaram uma geração
Foi nesse período que surgiram algumas das músicas mais conhecidas de sua carreira.
Nem Vem que Não Tem virou um enorme sucesso nas rádios brasileiras. Pouco depois vieram Mamãe Passou Açúcar em Mim, Sá Marina, Meu Limão, Meu Limoeiro e, principalmente, País Tropical, composição de Jorge Ben que ganhou projeção nacional na voz de Simonal.
Seu olhar para novos compositores também merece destaque.
Foi um dos primeiros artistas a gravar obras de Chico Buarque, Caetano Veloso e Toquinho, ajudando a apresentar esses nomes para um público ainda maior.
Um artista à frente do seu tempo
Em 1967, Wilson Simonal lançou Tributo a Martin Luther King.
Inspirada na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, a música exaltava o líder norte-americano assassinado no ano seguinte e falava sobre igualdade racial em um período em que esse tema ainda recebia pouca atenção na música popular brasileira.
A canção chegou a ser retida pela censura durante alguns meses, mostrando que, ao contrário da imagem simplificada construída anos depois, sua trajetória também incluiu momentos de enfrentamento às estruturas de poder.
O auge absoluto
Entre o fim dos anos 1960 e o início da década seguinte, Wilson Simonal viveu o ponto mais alto de sua carreira.
Comandava programas de televisão, fazia campanhas publicitárias, vendia discos em larga escala e se apresentava para plateias cada vez maiores.
Um dos momentos mais emblemáticos aconteceu em 1969, durante um show no Maracanãzinho.
Diante de cerca de 30 mil pessoas, Simonal conduziu o público como um maestro, transformando a plateia em um enorme coral durante a execução de Meu Limão, Meu Limoeiro.
Aquela apresentação entrou para a história da música brasileira e ajudou a consolidar sua fama como um artista de presença de palco incomparável.
A amizade com Pelé e a Copa do Mundo de 1970
O sucesso de Simonal ultrapassava os limites da música.
Amigo de Pelé, foi convidado pela Confederação Brasileira de Desportos para acompanhar a Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo de 1970, no México.
Naquele momento, era uma das figuras públicas mais conhecidas do país.
Existe até um episódio curioso frequentemente lembrado por pessoas próximas ao cantor: em alguns momentos da viagem, Pelé brincava dizendo que distribuía menos autógrafos do que Wilson Simonal.
A comparação ajuda a dimensionar o tamanho da popularidade alcançada pelo cantor naquele período.
O rompimento com a Globo
Ainda em 1970, Simonal entrou em conflito com a Rede Globo durante negociações envolvendo o Festival Internacional da Canção.
Insatisfeito com questões contratuais, criticou publicamente a emissora.
A resposta foi imediata.
Seu nome passou a ser vetado da programação da Globo, diminuindo significativamente sua presença na televisão justamente quando vivia o auge da carreira.
Na época, poucos artistas tinham força suficiente para enfrentar uma emissora daquele tamanho.
O episódio que mudou tudo
Em 1971, Wilson Simonal enfrentava problemas financeiros e suspeitava de irregularidades na administração de sua empresa.
Depois de demitir o contador Raphael Viviani, passou a acusá-lo de desviar dinheiro.
Na tentativa de recuperar o suposto prejuízo, recorreu a policiais ligados ao DOPS.
Viviani foi levado pelos agentes, sofreu tortura e acabou assinando uma confissão sob coação.
O caso veio rapidamente a público.
Simonal foi denunciado e, anos depois, condenado. Em grau de recurso, a acusação inicial foi reclassificada para constrangimento ilegal, reduzindo significativamente a pena.
Embora a responsabilidade direta pela tortura nunca tenha sido atribuída a ele, sua participação no episódio foi suficiente para provocar um enorme desgaste de imagem.
O ostracismo
A partir daquele momento, a carreira de Wilson Simonal entrou em declínio.
Seus discos deixaram de receber divulgação, os convites para programas de televisão desapareceram e boa parte da imprensa passou a ignorar seu trabalho.
Ao mesmo tempo, espalhou-se o boato de que o cantor seria informante dos órgãos de repressão da ditadura militar.
Essa acusação jamais foi comprovada, mas ganhou força durante os anos seguintes e contribuiu para afastá-lo definitivamente de grande parte do meio artístico.
O resultado foi devastador.
O artista que poucos anos antes lotava ginásios passou a encontrar enormes dificuldades para gravar discos e realizar apresentações.
A revisão de sua história
Nos anos 2000, pesquisadores, jornalistas e familiares passaram a revisitar a trajetória de Wilson Simonal.
Biografias, documentários e reportagens analisaram documentos da época e reconstruíram diversos acontecimentos.
Em 2003, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB concluiu que não existiam provas de que Wilson Simonal tivesse colaborado como informante dos órgãos de repressão da ditadura militar.
Essa decisão não eliminou todas as controvérsias em torno de sua história, mas ajudou a corrigir uma das acusações que mais contribuíram para seu isolamento.
Nos anos seguintes, o documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, as biografias publicadas sobre sua vida e o filme Simonal despertaram o interesse de uma nova geração pelo cantor.
Um legado que continua vivo
Wilson Simonal morreu em 25 de junho de 2000, aos 62 anos.
Sua trajetória continua sendo objeto de debates, mas seu talento permanece incontestável.
Poucos artistas brasileiros conseguiram reunir uma voz tão marcante, um domínio de palco tão impressionante e uma capacidade tão grande de dialogar com diferentes públicos.
Mais do que interpretar sucessos, Simonal ajudou a transformar a maneira como os shows eram conduzidos no Brasil. Sua influência pode ser percebida em diversos artistas que vieram depois e encontraram em sua irreverência, seu balanço e sua comunicação direta com a plateia uma fonte permanente de inspiração.
Conhecer a história de Wilson Simonal é entender que a música brasileira também foi construída por personagens complexos. Sua carreira reúne momentos de enorme brilho, episódios difíceis e um legado artístico que continua despertando interesse décadas depois de sua morte. Independentemente das controvérsias, seu nome permanece entre os mais importantes da história da música popular brasileira.

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