Lula Côrtes: a história do mestre da psicodelia brasileira

No dia 09 de maio de 1949 nascia, em Pernambuco, um dos artistas mais visionários da cultura brasileira. Lula Côrtes não foi apenas músico. Foi poeta, pintor, compositor, multi-instrumentista e um dos principais responsáveis por transformar a psicodelia brasileira em uma linguagem própria.

Décadas antes da internet redescobrir discos obscuros da contracultura nacional, Lula já misturava maracatu, repente, rock psicodélico, folk, música oriental e experimentação sonora em obras que hoje são consideradas fundamentais para entender a música independente no Brasil.

Seu nome está diretamente ligado a discos cultuados mundialmente como Satwa e Paêbirú, trabalhos que atravessaram gerações e ajudaram a consolidar a imagem de um Nordeste cósmico, místico e revolucionário.

Quem foi Lula Côrtes?

Luiz Augusto Martins Côrtes nasceu em Recife e passou parte da adolescência em São Paulo, onde entrou em contato com o rock and roll, a contracultura e movimentos artísticos experimentais. Ainda muito jovem, começou a desenvolver interesse pelas artes visuais, pela poesia e pela música.

Muito antes de se tornar referência da psicodelia brasileira, Lula já demonstrava uma inquietação artística rara. Sua produção visual era influenciada pelo dadaísmo, surrealismo e expressionismo, enquanto sua visão musical absorvia elementos do folk, do rock progressivo, da música árabe e das tradições nordestinas.

Ao longo dos anos 1970, Lula Côrtes construiu uma trajetória completamente fora dos padrões da indústria musical brasileira. Enquanto grande parte do mercado ainda estava presa a formatos tradicionais, ele buscava liberdade criativa absoluta, produzindo discos experimentais, independentes e profundamente conectados à cultura popular nordestina.

A psicodelia nordestina antes de virar culto

Quando se fala em psicodelia brasileira, muita gente lembra imediatamente de nomes ligados ao tropicalismo ou ao rock progressivo do Sudeste. Mas no Nordeste acontecia um movimento igualmente inovador.

Em Pernambuco, artistas como Lula Côrtes, Zé Ramalho, Alceu Valença, Marconi Notaro, Flaviola, Ave Sangria e Lailson criavam uma cena underground marcada pela mistura entre tradição regional e experimentação sonora.

Esse movimento, que mais tarde ficou conhecido como Udigrudi Nordestino, buscava criar uma música brasileira profundamente autoral. Em vez de copiar modelos estrangeiros, esses artistas misturavam maracatu, viola nordestina, repente, rock psicodélico, folk acústico, improvisação, instrumentos orientais e poesia experimental em uma sonoridade absolutamente única.

Dentro desse cenário, Lula Côrtes acabou se tornando uma das figuras mais importantes e influentes.

O tricórdio e a criação de uma identidade sonora

Durante viagens pelo exterior nos anos 1970, Lula Côrtes passou pelo Marrocos e entrou em contato com instrumentos tradicionais árabes. Foi nesse período que adquiriu uma espécie de cítara popular de três cordas.

Com o tempo, desenvolveu uma maneira própria de tocar o instrumento, modificando sua construção e rebatizando-o de tricórdio.

O tricórdio se tornou uma das marcas registradas de sua obra. O instrumento ajudava a criar atmosferas hipnóticas e meditativas, aproximando a música nordestina de elementos orientais e psicodélicos. Em muitos momentos, o som criado por Lula parecia vir simultaneamente do sertão brasileiro e de paisagens espirituais imaginárias.

Essa fusão seria essencial nos discos que transformariam seu nome em lenda.

Satwa e o nascimento da música independente brasileira

Em 1973, Lula Côrtes lançou ao lado de Lailson o álbum Satwa, hoje reconhecido como o primeiro disco independente da história da música brasileira.

Gravado de maneira artesanal nos estúdios da gravadora Rozenblit, em Recife, o álbum apresentava uma proposta completamente diferente da música comercial produzida na época.

As faixas eram construídas principalmente com tricórdio, viola de 12 cordas e pequenas intervenções vocais. O resultado era um folk psicodélico profundamente brasileiro, carregado de improvisações, texturas acústicas e climas contemplativos.

Músicas como Valsa dos Cogumelos, Blue do Cachorro Muito Louco e Can I Be Satwa ajudaram a transformar o disco em um objeto de culto entre colecionadores e pesquisadores da psicodelia mundial.

Durante décadas, Satwa circulou quase clandestinamente entre fãs de música experimental. Com o crescimento do interesse internacional pela psicodelia brasileira, o disco acabou sendo redescoberto por selos estrangeiros e ganhou relançamentos fora do Brasil.

Hoje, o álbum é considerado uma peça fundamental da música independente brasileira.

Paêbirú: o disco que virou lenda

Se Satwa já era revolucionário, o passo seguinte de Lula Côrtes seria ainda mais ambicioso.

Em parceria com Zé Ramalho, Lula gravou em 1974 o álbum Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol.

Inspirado nas inscrições da Pedra do Ingá, na Paraíba, o disco mergulhava em temas ligados à ancestralidade, espiritualidade, natureza e transcendência.

O álbum foi dividido em quatro partes inspiradas nos elementos da natureza: Terra, Água, Fogo e Ar.

Musicalmente, Paêbirú era uma explosão criativa. O disco misturava maracatu, folk psicodélico, guitarras fuzz, rabecas, ritmos nordestinos, improvisações experimentais, percussões tribais, influências orientais e poesia mística.

Tudo isso embalado por uma atmosfera absolutamente única dentro da música brasileira.

Faixas como Nas Paredes da Pedra Encantada, os Segredos Talhados por Sumé, Raga dos Raios e Louvação a Iemanjá transformaram o disco em uma das obras mais cultuadas da contracultura nacional.

A enchente que transformou Paêbirú em mito

O destino de Paêbirú ajudou a transformar o disco em uma verdadeira lenda.

Em 1975, pouco depois da prensagem do álbum, uma enchente atingiu a gravadora Rozenblit e destruiu grande parte do estoque armazenado no local.

As cópias de Paêbirú praticamente desapareceram.

Durante décadas, acreditou-se que apenas cerca de 300 exemplares haviam sobrevivido. Isso transformou o álbum em um dos vinis mais raros e valiosos da música brasileira.

Colecionadores do mundo inteiro passaram a disputar as poucas cópias existentes, elevando o status do disco ao nível de obra mítica.

Com o passar do tempo, Paêbirú ganhou relançamentos internacionais e finalmente passou a ser reconhecido como um dos trabalhos mais importantes da psicodelia mundial.

Lula Côrtes além da música

Reduzir Lula Côrtes apenas à música seria ignorar parte fundamental de sua trajetória.

Sua atuação nas artes visuais e na literatura também foi intensa.

Como pintor, Lula produziu obras influenciadas pelo surrealismo, expressionismo e simbologia mística. Seus quadros frequentemente apresentavam figuras híbridas, paisagens oníricas e referências ligadas à espiritualidade.

Na literatura, lançou livros experimentais como Rarucorp e Hábito ou Vício, além do livro-objeto Bom Era Meu Irmão, Ele Morreu e Eu Não.

Toda sua produção artística buscava romper formatos convencionais, aproximando arte, experiência sensorial e liberdade criativa.

Os discos esquecidos e a continuidade da obra

Apesar da importância histórica de Satwa e Paêbirú, a discografia de Lula Côrtes vai muito além desses dois trabalhos.

Durante os anos 1980 e 1990, ele lançou discos importantes como Rosa de Sangue, que mistura frevo, psicodelia, guitarras pesadas e influências orientais em uma sonoridade marcada pela contracultura brasileira.

Em O Gosto Novo da Vida, Lula apresentou uma faceta mais acessível e melódica, embora ainda profundamente conectada ao universo psicodélico que construiu desde os anos 1970.

Já Bom Shankar Bolenajh, gravado ao lado de Jarbas Mariz, aprofundou sua relação com a espiritualidade oriental e com atmosferas instrumentais meditativas.

Nos anos 1990, Lula ainda mergulharia em uma abordagem mais ligada ao blues e ao rock clássico ao lado da banda Má Companhia, sem abandonar os elementos surreais e experimentais presentes em toda sua trajetória.

Mesmo sem apoio consistente da indústria fonográfica, Lula continuou produzindo música de maneira independente até os últimos anos de vida.

O reconhecimento tardio de Lula Côrtes

Durante muito tempo, Lula Côrtes permaneceu restrito a círculos underground, colecionadores e pesquisadores de música alternativa.

Mas nas últimas décadas sua obra passou por um forte processo de redescoberta.

Selos internacionais começaram a relançar seus discos, documentários foram produzidos sobre sua trajetória e novas gerações passaram a enxergar Lula como uma das figuras mais importantes da música experimental brasileira.

Hoje, seu trabalho influencia artistas ligados à psicodelia, ao rock alternativo, ao folk experimental, à música independente e à cena nordestina contemporânea.

Seu legado também ajudou a ampliar a percepção internacional sobre a riqueza da música brasileira além dos nomes mais conhecidos do mercado.

A permanência do legado

Lula Côrtes faleceu em março de 2011, aos 61 anos, em Recife.

Sua morte encerrou uma trajetória profundamente singular dentro da cultura brasileira, mas sua obra continuou crescendo de importância com o passar do tempo.

Mais do que um músico psicodélico, Lula foi um artista que transformou tradição popular, espiritualidade, experimentalismo e liberdade criativa em uma linguagem própria.

Mais de 50 anos depois de seus discos mais importantes, sua música continua sendo descoberta por novos ouvintes, pesquisadores e amantes da contracultura brasileira.

E talvez seja exatamente isso que mantém Lula Côrtes tão vivo: a sensação de que seus discos ainda parecem vir de algum lugar fora do tempo.

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