Clara Nunes e a virada que ela impôs à música brasileira

Em 1974, um disco chamado Alvorecer vendeu mais de 300 mil cópias no Brasil. O número em si já seria notável para qualquer artista da época, mas o que ele representava ia além das vendas: nenhuma cantora brasileira tinha ultrapassado a marca de 100 mil discos vendidos até aquele momento. A conquista era de Clara Nunes, e ela não chegou lá por acaso.

De tecelã em Belo Horizonte a voz do samba

Clara Francisca Gonçalves Pinto nasceu em Caetanópolis, no interior de Minas Gerais, em 1942. Aos 16 anos se mudou para Belo Horizonte, onde trabalhava de dia como tecelã e à noite fazia curso de formação de professoras. Foi nessa fase que o violonista Jadir Ambrósio, autor do hino do Cruzeiro, ouviu a moça cantar e passou a levá-la para se apresentar em programas de rádio da cidade. Ainda usava o nome de batismo.

A carreira que se seguiu, já como Clara Nunes, começou marcada por boleros e canções românticas, o repertório mais convencional para uma cantora do período. Foi um caminho que lhe deu algum reconhecimento, mas que não tinha muito a ver com o que ela viria a representar depois.

A virada de 1971 e a aposta no samba de raiz

A mudança de rumo aconteceu com o álbum Clara Nunes, de 1971, primeiro produzido por Adelzon Alves e o primeiro dentro da nova orientação artística da cantora. A faixa Ê Baiana fez sucesso nas rádios e deu início a uma ascensão que se consolidaria nos anos seguintes. Em vez de repertório romântico, Clara passou a interpretar compositores ligados às escolas de samba, como João Nogueira, e a pesquisar a fundo a música popular brasileira, indo além do próprio gênero até tradições, vestimentas e credos afro-brasileiros.

Em 1973 fez a turnê O Poeta, A Moça e O Violão ao lado de Toquinho e Vinicius de Moraes, que passou pelo Brasil e seguiu para a Europa. Foi o ano seguinte, porém, que consolidaria de vez sua posição no mercado fonográfico.

Alvorecer e a quebra de um teto que ninguém tinha questionado

Alvorecer saiu em 1974 pela Odeon, com produção de Milton Miranda e Adelzon Alves. O disco trazia Conto de Areia, um dos maiores sucessos da carreira de Clara, além de Menino Deus, composição de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, o poeta com quem ela se casaria no ano seguinte e permaneceria até o fim da vida.

O álbum vendeu mais de 300 mil cópias, tornando Clara Nunes a primeira cantora brasileira a ultrapassar 100 mil discos vendidos de um único trabalho. Até então, essa marca era território masculino. O feito não apareceu do nada: veio de uma cantora que tinha decidido investir num repertório que exigia pesquisa e identidade, não apenas apelo comercial fácil, e que mesmo assim se provou capaz de vender mais que os nomes consagrados do mercado.

A Guerreira e a religião assumida em público

O apelido de Guerreira veio das roupas brancas, dos turbantes e das guias que Clara passou a usar no palco. Não era estilo por estilo: era a expressão pública de sua ligação com o candomblé e a umbanda, num momento em que declarar isso abertamente podia custar caro para a carreira de qualquer artista. Ela pesquisou ritmos nativos, costumes e danças de matriz africana com o mesmo rigor que dedicava ao repertório musical, o que deu à sua obra uma coerência que ia da estética ao conteúdo das canções.

Essa ligação também aparecia na relação de Clara com o samba carioca e, em especial, com a Portela. Em 1975 ela interpretou o samba-enredo Macunaíma no desfile da escola, e sua gravação de Portela na Avenida, de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, virou clássico do gênero. Canto das Três Raças, composta pelo marido com Mauro Duarte, tornou-se um dos maiores hinos do samba na voz dela, uma síntese quase didática da mistura racial que formou a música popular brasileira.

Uma morte que ninguém esperava

Clara Nunes morreu em 2 de abril de 1983, aos 40 anos, no auge da carreira. Em 5 de março daquele ano, ela se submeteu a uma cirurgia considerada simples, para remoção de varizes nas pernas, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Durante o procedimento sofreu uma reação de hipersensibilidade ao halotano, o anestésico usado, e teve uma parada cardíaca seguida de choque anafilático. Ficou 28 dias em coma, com morte cerebral, até o óbito ser declarado. O médico responsável descreveria décadas depois a reação como desproporcional a qualquer coisa que já tinha visto.

A notícia chocou o país. Clara estava em plena atividade, com carreira consolidada e uma discografia que já somava milhões de cópias vendidas ao longo dos anos.

O que ficou

Rolling Stone Brasil colocou Clara Nunes como a nona maior voz da música popular brasileira numa lista de 2012. O número é uma forma de medir reconhecimento, mas não captura bem o que ela mudou na prática: abriu um mercado que, até 1974, simplesmente não considerava que uma mulher pudesse vender tanto quanto os homens que dominavam as paradas. Depois dela, isso deixou de ser uma pergunta em aberto.

Neste 12 de agosto, data em que completaria 84 anos, essa é a conta que vale a pena revisitar. Não porque seja uma bela história de superação, mas porque é um dado concreto sobre como o mercado da música brasileira mudou de forma e quem forçou essa mudança.

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