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Carangas Cultural ©
Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
Projeto cultural independente.
No dia 12 de junho de 2003, a música brasileira perdeu um de seus criadores mais originais. Itamar Assumpção morreu aos 53 anos, após uma batalha contra um câncer de intestino, deixando para trás uma obra que continua despertando descobertas, debates e novas leituras mais de duas décadas depois.
Ao longo dos anos, muitos termos foram usados para definir sua trajetória. Experimental, alternativo, maldito, vanguardista. Nenhum deles parece suficiente. Se existe uma palavra capaz de atravessar sua carreira do começo ao fim, talvez seja outra: independência.
Mas não a independência transformada em slogan de marketing que se tornou comum nas últimas décadas. No caso de Itamar, tratava-se de uma postura artística. Uma escolha que influenciava tudo: as canções, os arranjos, os shows, os discos, as parcerias e até a maneira como se relacionava com o mercado musical. Sua obra nasceu da recusa em simplificar ideias para se tornar mais palatável e da disposição de seguir caminhos próprios mesmo quando isso significava menos espaço na mídia, menos dinheiro e menos reconhecimento imediato.
Passados 23 anos de sua morte, essa talvez seja a característica que mantém sua música tão viva. Enquanto muitos trabalhos envelhecem junto com a época em que foram criados, os discos de Itamar continuam parecendo deslocados no tempo. Não porque tentavam prever o futuro, mas porque nunca aceitaram se prender completamente ao presente.
Quem foi Itamar Assumpção?
Francisco José Itamar de Assumpção nasceu em 13 de setembro de 1949, na cidade de Tietê, interior de São Paulo. Bisneto de angolanos escravizados, cresceu em contato com manifestações culturais afro-brasileiras que mais tarde deixariam marcas profundas em sua obra.
Ainda jovem, mudou-se para Arapongas, no Paraná, onde viveu parte importante de sua formação. Foi ali que o interesse pela música começou a ganhar força, ao mesmo tempo em que o teatro ocupava um espaço cada vez maior em sua vida. Muito antes de ser reconhecido como compositor, Itamar já entendia a arte como um território onde diferentes linguagens podiam conviver.
Essa convivência entre música e teatro seria decisiva. Ao longo da carreira, seus shows nunca se limitaram à execução das canções. Havia personagens, encenações, diálogos, humor, tensão e um senso de performance que transformava cada apresentação em algo próximo de uma experiência cênica.
Quando chegou a São Paulo, em 1973, carregava consigo essa formação híbrida e uma visão artística que dificilmente encontraria lugar nas estruturas tradicionais da indústria fonográfica.
A chegada a São Paulo e o encontro com a Vanguarda Paulista
A São Paulo dos anos 1970 era um território de contradições. Ao mesmo tempo em que concentrava boa parte do mercado cultural brasileiro, também era um espaço onde artistas buscavam alternativas para escapar das fórmulas impostas pelas grandes gravadoras.
Foi nesse ambiente que Itamar encontrou outros criadores igualmente inquietos. Nomes como Arrigo Barnabé, Ná Ozzetti, Grupo Rumo e Premê começavam a construir uma cena que mais tarde ficaria conhecida como Vanguarda Paulista.
O papel do Teatro Lira Paulistana
Grande parte dessa movimentação passava pelo Teatro Lira Paulistana, em Pinheiros. Mais do que uma casa de espetáculos, o espaço funcionava como um ponto de encontro para artistas interessados em experimentar novas formas de criação.
Ali, a aprovação das gravadoras deixava de ser o principal objetivo. O que importava era a liberdade para testar ideias, misturar referências e construir linguagens próprias.
Foi nesse contexto que Itamar Assumpção encontrou seu lugar.
Seus shows chamavam atenção pela combinação incomum de música, teatro, poesia e crítica social. Enquanto parte da indústria buscava artistas fáceis de categorizar, ele parecia interessado justamente no contrário: criar algo que escapasse das categorias existentes.
Quando a independência virou linguagem artística
A independência de Itamar não estava apenas na forma como produzia seus discos. Ela também aparecia dentro da música.
Enquanto muitos artistas construíam identidades ligadas a um único gênero, ele transitava com naturalidade entre samba, funk, reggae, rock, jazz, música afro-brasileira e poesia falada. Essas referências não apareciam como citações ocasionais. Eram elementos de uma linguagem própria que se recusava a respeitar fronteiras rígidas.
Essa liberdade ajudou a criar uma obra que continua difícil de classificar até hoje.
Nego Dito e a construção de um universo próprio
Em 1980, o lançamento de Beleléu, Leléu, Eu apresentou ao público um dos personagens mais importantes de sua trajetória: Nego Dito.
Figura ao mesmo tempo fictícia e autobiográfica, Nego Dito permitia que Itamar abordasse temas como racismo, violência, exclusão e identidade negra sem abrir mão da ironia e do humor.
O disco marcou a chegada de uma voz que não se parecia com nenhuma outra da música brasileira daquele período.
Décadas depois, continua sendo considerado uma das obras fundamentais da produção independente nacional.
Às Próprias Custas S.A. e a recusa em seguir fórmulas
Se existe um disco capaz de resumir a postura de Itamar Assumpção diante do mercado, provavelmente é Às Próprias Custas S.A., lançado em 1981.
O título funciona quase como uma declaração de princípios.
Em uma época em que assinar com uma grande gravadora representava o principal objetivo de boa parte dos artistas, Itamar escolheu outro caminho. Produzir de forma independente significava assumir riscos financeiros, enfrentar limitações de distribuição e abrir mão de oportunidades comerciais importantes.
Ainda assim, a autonomia parecia mais importante do que qualquer promessa de sucesso imediato.
Essa decisão ajudou a transformar sua trajetória em uma referência para gerações posteriores de músicos independentes.
Por que Itamar Assumpção rejeitava o rótulo de “maldito”
Durante muitos anos, a crítica cultural brasileira associou Itamar Assumpção ao grupo de artistas frequentemente chamados de “malditos”.
Ele nunca gostou dessa definição.
Na prática, o rótulo servia para enquadrar músicos que produziam obras complexas demais para os padrões da indústria. O problema é que essa classificação também sugeria uma espécie de isolamento voluntário, como se esses artistas estivessem distantes do público por escolha própria.
Itamar discordava profundamente dessa ideia.
Sempre que surgia a oportunidade, fazia questão de lembrar que se considerava um artista popular. Sua música podia ser inventiva, desafiadora e experimental, mas continuava dialogando com experiências concretas da vida brasileira, especialmente com a cultura negra urbana que atravessava sua trajetória.
O legado de Itamar Assumpção para a música brasileira
A influência de Itamar Assumpção não pode ser medida apenas por números de vendas ou execuções em rádio.
Sua importância aparece na quantidade de artistas que encontraram em sua obra uma autorização para criar sem pedir licença.
Cássia Eller, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Tom Zé, Liniker, Juçara Marçal e diversos outros nomes dialogaram direta ou indiretamente com seu trabalho. Além disso, suas filhas, Serena Assumpção e Anelis Assumpção, ajudaram a manter viva uma produção artística que continua inspirando músicos, pesquisadores e ouvintes.
Mais do que um compositor talentoso, Itamar se tornou um símbolo de autonomia criativa dentro da música brasileira.
23 anos sem Itamar Assumpção
Lembrar Itamar Assumpção em 2026 não é apenas revisitar a trajetória de um artista importante. É refletir sobre uma ideia de liberdade que continua rara.
Em uma época marcada por métricas, tendências e algoritmos, sua obra permanece como um lembrete de que a criação artística nem sempre precisa seguir o caminho mais fácil. Seus discos nasceram da curiosidade, da experimentação e da disposição de correr riscos.
Talvez seja por isso que sua música continue encontrando novos ouvintes mais de vinte anos após sua morte.
Enquanto boa parte da indústria se preocupava em descobrir o que funcionava, Itamar Assumpção passou a vida tentando descobrir o que ainda não tinha sido feito. E é justamente essa busca que mantém sua obra tão necessária para a música brasileira.

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