Mateus Aleluia: o homem que fez da ancestralidade uma música do presente

Mateus Aleluia completa 83 anos neste 25 de setembro de 2026. Nascido em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, ele atravessou mais de seis décadas de música sem separar composição, pesquisa, religiosidade e história. Foi um dos nomes centrais dos Tincoãs, viveu quase vinte anos em Angola e construiu uma carreira solo que ganhou força justamente quando muitos artistas de sua geração já diminuíam o ritmo de trabalho.

A trajetória de Mateus também ajuda a entender uma parte importante da música produzida no Brasil a partir da segunda metade do século XX. Nos Tincoãs, participou da criação de um repertório que colocou o candomblé, o samba de roda, os orixás e diferentes referências africanas no centro das canções. Depois, em Angola, passou anos pesquisando justamente as ligações entre essas práticas brasileiras e suas origens no continente africano.

Cantor, compositor, violonista, percussionista e pesquisador, Mateus chega aos 83 anos ainda lançando trabalhos, fazendo shows e desenvolvendo projetos ligados a assuntos que pesquisa há décadas.

Cachoeira veio antes de tudo

Mateus Aleluia Lima nasceu em 25 de setembro de 1943, em Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano. A região é uma das referências históricas da cultura negra na Bahia e mantém uma relação profunda com o samba de roda, as festas populares, as irmandades religiosas e os terreiros de candomblé.

Foi nesse ambiente que Mateus começou a fazer música. Sua carreira teve início ainda nos anos 1950, quando participou de diferentes grupos de Cachoeira e de cidades próximas. Em 1962, entrou para Os Tincoãs no lugar do cantor Erivaldo.

O grupo já existia e trabalhava principalmente com boleros. Aos poucos, porém, o repertório começou a mudar. O samba de roda, os cantos ligados ao candomblé e a própria musicalidade do Recôncavo ganharam cada vez mais espaço.

Essa mudança acabaria definindo a fase pela qual Os Tincoãs seriam lembrados décadas depois.

Os Tincoãs e os discos que marcaram os anos 1970

Em 1973, Os Tincoãs lançaram o álbum que leva o nome do grupo. No repertório estavam músicas como Deixa a Gira Girá, Yansã, Mãe Virgem, Na Beira do Mar, Saudação aos Orixás, Canto pra Iemanjá, Obaluaê e A Força da Jurema.

Mateus aparece como compositor em boa parte do disco, principalmente em parceria com Dadinho. O álbum já apresentava algumas das características que se tornariam marcantes no grupo: harmonias vocais muito trabalhadas, percussão afro-brasileira e referências religiosas colocadas dentro da música popular sem serem tratadas apenas como elementos decorativos.

Dois anos depois veio O Africanto dos Tincoãs. O disco de 1975 trouxe Promessa ao Gantois, Homem Nagô, Canto e Danço pra Curar, Oxóssi te Chama, Ogum Pai e outras composições ligadas ao universo que o trio vinha desenvolvendo.

Em 1977, o grupo lançou outro álbum chamado Os Tincoãs. É nele que aparece Cordeiro de Nanã, composição de Mateus Aleluia e Dadinho que se tornou uma das músicas mais conhecidas do grupo. O disco também inclui Atabaque Chora, Lamento às Águas, Canto de Boiadeiro, Enterro da Iyalorixá e Acará.

Os trabalhos daquele período ainda contaram com arranjadores como João Donato e Oberdan Magalhães. A presença de cordas, metais e outros instrumentos não afastava o grupo de sua base. Mateus explicaria anos depois que os Tincoãs simplesmente incorporavam aquilo que consideravam musicalmente interessante, sem tentar estabelecer regras rígidas sobre o que poderia ou não entrar naquele som.

Quando perguntado sobre o que o grupo pretendia demonstrar com aquele repertório, ele respondeu de maneira muito mais simples: “Eu estou aqui”.

Como o atabaque mudou o violão de Mateus Aleluia

A relação de Mateus com a percussão também explica parte de sua maneira particular de tocar violão. Nos Tincoãs, seu principal instrumento era o atabaque. Ele já tocava violão, mas o instrumento passou a ter outra importância depois que começou a trabalhar com maior frequência sozinho.

Mateus levou para as cordas ritmos que conhecia da percussão. Em entrevista, explicou que seu dedilhado incorporou células rítmicas do rum, rumpi, lé e gã, instrumentos usados em conjuntos de percussão ligados aos terreiros de candomblé.

Isso faz com que o violão de Mateus cumpra duas funções ao mesmo tempo. Além de produzir acordes e melodias, também trabalha como instrumento rítmico. É uma característica fácil de perceber principalmente nas gravações mais econômicas, quando sua voz aparece acompanhada por pouco mais que o próprio violão.

A palavra também ocupa um espaço importante. Mateus costuma alternar canto e fala, reforçando trechos das letras e chamando atenção para aquilo que está sendo dito. Em sua visão, poesia e música funcionam juntas e uma modifica a maneira como a outra é percebida.

De Cachoeira para Luanda

Em 1983, Mateus Aleluia foi para Angola. O que poderia ter sido apenas uma passagem pelo país se transformou em quase vinte anos de vida por lá. Ele permaneceu em Angola até 2002.

Nesse período, trabalhou com pesquisa cultural e aprofundou estudos sobre música, religiosidade e diferentes tradições africanas. Contratado pela Secretaria de Cultura de Angola, viajou pelo país para encontrar mestres e pessoas ligadas a diferentes saberes tradicionais.

Esse contato teve importância especial porque permitiu que Mateus observasse diretamente práticas que conhecia, até então, por suas versões desenvolvidas no Brasil.

Ao lembrar da experiência angolana, ele resumiu a sensação com uma frase que acabou se tornando uma das mais conhecidas de suas entrevistas: “Eu saí de uma Bahia para outra”.

Mateus contou que encontrou em Angola maneiras de falar, de receber pessoas e de organizar a convivência que lembravam seus pais, seus avós e a Bahia de gerações anteriores. Também pôde observar diferenças entre conceitos religiosos utilizados no Brasil e os significados que determinadas palavras e práticas mantinham em território angolano.

A experiência não encerrou sua relação com a Bahia. Fez justamente o contrário: deu a Mateus novas ferramentas para compreender coisas que estavam presentes em Cachoeira desde sua infância.

O afro-barroco segundo Mateus Aleluia

Uma das ideias desenvolvidas por Mateus ao longo das últimas décadas é aquilo que ele chama de afro-barroco. O conceito parte de sua leitura da própria formação cultural brasileira, principalmente da Bahia.

Mateus entende que o barroco trazido pelos portugueses não permaneceu intacto quando chegou ao Brasil. Aqui ele entrou em contato com povos indígenas e com diferentes povos africanos trazidos à força durante o período colonial. Desse processo surgiram manifestações que já não poderiam ser entendidas apenas como reproduções de modelos europeus.

Para ele, nem mesmo existe um único barroco. Há diferenças entre o barroco português, espanhol, alemão, francês e aquele desenvolvido no Brasil. Quando essas formas encontram outras culturas, também sofrem transformações.

O assunto passou a fazer parte de palestras, apresentações musicais e projetos de Mateus. Em 2026, foi publicado o livro Afrobarroco, organizado por Tenille Bezerra, reunindo textos, memórias e fundamentos desse trabalho iniciado nos anos 2000.

Também em 2026, estreou o documentário musical Pontos de Força, dirigido e roteirizado por Vânia Lima e apresentado na 18ª edição do festival In-Edit Brasil.

Mateus Aleluia começa a carreira solo depois dos 60 anos

Depois de retornar ao Brasil em 2002, Mateus voltou gradualmente ao circuito musical. A carreira solo ganhou forma com Cinco Sentidos, lançado no fim dos anos 2000.

O disco reúne músicas como Ogum Pa, Amor Cinza, A Lente do Homem, Palavra que Reza, Lamento às Águas / Na Beira do Mar, Cordeiro de Nanã, Homem, Animal que Fala! e Liberdade. O trabalho mostrou que a produção de Mateus não terminava na história dos Tincoãs.

O segundo álbum solo, Fogueira Doce, chegou em 2017. O título nasceu de uma lembrança de Angola. Durante o cacimbo, período em que as temperaturas ficam mais amenas em Luanda, Mateus observou o nascer e o pôr do sol e ficou marcado pela intensidade do vermelho. Para ele, parecia um fogo que aquecia sem queimar. Dessa imagem surgiu o nome do disco.

Fogueira Doce inclui faixas como Eu Vi Obatalá, Bahia… Bate o Tambor!, Sonhos de Crioula, Ogum Akarô, De Tudo Isso Eu Sou e O Serpentear da Natureza.

Em 2020, veio Olorum, álbum de 12 faixas com participações de João Donato, Thiago França, Pastoras do Rosário e Lenna Bahule. No ano seguinte, Mateus lançou Afrocanto das Nações, trabalho que recebeu indicação ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa.

A pesquisa por trás de Afrocanto das Nações

Desde 2020, Mateus Aleluia desenvolve o projeto Nações do Candomblé, uma pesquisa voltada para as relações entre os cantos e toques praticados no Brasil e aqueles encontrados em regiões africanas ligadas às tradições de orixás, voduns e nkises.

A proposta não é simplesmente apontar semelhanças. O trabalho procura investigar o que foi preservado, o que se modificou e quais diferenças surgiram depois de séculos de desenvolvimento dessas práticas no Brasil.

Afrocanto das Nações nasceu diretamente dessa pesquisa. Por isso, o disco não pode ser entendido apenas como mais um lançamento dentro da discografia de Mateus. Ele também registra musicalmente parte de um estudo que envolve religião, história, língua e tradições transmitidas entre gerações.

Essa característica acompanha Mateus há muito tempo. Pesquisa e música aparecem juntas em diversos momentos de sua trajetória, desde os Tincoãs até seus trabalhos mais recentes.

O primeiro disco chamado apenas Mateus Aleluia

Em 2025, aos 82 anos, Mateus lançou seu quinto trabalho solo. Depois de mais de seis décadas de carreira, foi a primeira vez que decidiu colocar simplesmente Mateus Aleluia na capa de um disco.

O álbum reúne 12 composições autorais distribuídas em seis faixas. Entre elas estão No Amor Não Mando, Doce Sacrifício / Filho / Acalanto, Lua / Luar, Outra Face do Sol, Márua e Oh, Música! / Aleluia. A direção musical ficou a cargo de Tadeu Mascarenhas.

O disco foi gravado na Bahia entre setembro e novembro de 2024 e lançado no ano seguinte. Em 2025, Mateus também participou do espetáculo Baía Profunda, apresentado na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, ao lado da Orquestra Afroinfônica e com participações de Carlinhos Brown e Margareth Menezes.

A atividade continuou em 2026. Mateus estreou a turnê do show solo Seu Mateus no Teatro Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro, com a casa lotada.

Mateus Aleluia chega aos 83 anos ainda em atividade

Dos primeiros grupos musicais de Cachoeira aos discos dos Tincoãs, da mudança para Angola à carreira solo iniciada depois dos 60 anos, Mateus Aleluia construiu uma trajetória que não cabe apenas na lembrança de um grupo ou de uma música.

Aos 83 anos, continua compondo, pesquisando, gravando e se apresentando. Seu trabalho recente não funciona apenas como celebração daquilo que fez nos anos 1970. Em 2025 lançou um disco de inéditas e, em 2026, voltou aos palcos com uma nova turnê.

Para quem ainda conhece pouco de sua obra, os três discos fundamentais dos Tincoãs lançados entre 1973 e 1977 são um bom começo. Deixa a Gira Girá, Cordeiro de Nanã, Promessa ao Gantois, Na Beira do Mar e Saudação aos Orixás ajudam a entender a sonoridade construída pelo grupo.

Depois, vale seguir pela discografia solo de Mateus e perceber o que mudou — e o que permaneceu — em Cinco Sentidos, Fogueira Doce, Olorum, Afrocanto das Nações e Mateus Aleluia.

Hoje, no aniversário de 83 anos de Seu Mateus, há bastante coisa para comemorar. E, principalmente, bastante música para ouvir.

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