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Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
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Cassiano faria 83 anos neste 16 de setembro. Nascido em Campina Grande, na Paraíba, em 1943, ele foi um dos nomes centrais na formação da soul music brasileira e participou diretamente de discos e músicas que se tornaram clássicos. Mesmo assim, seu nome nunca alcançou junto ao grande público a mesma projeção de artistas com quem trabalhou, como Tim Maia.
A lista de músicas ajuda a entender o tamanho do compositor. Cassiano participou da criação de “Primavera (Vai Chuva)” e “Eu Amo Você”, gravadas por Tim Maia, e assinou também sucessos de sua própria carreira, como “A Lua e Eu” e “Coleção”. Foram poucas dezenas de músicas lançadas e apenas quatro discos solo, mas o repertório que deixou ocupa um lugar importante na música brasileira.
De Campina Grande para o Rio de Janeiro
Genival Cassiano dos Santos passou pouco tempo na Paraíba. Ainda criança, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, no fim dos anos 1940. Uma das lembranças que guardava de Campina Grande era a relação de seu pai com Jackson do Pandeiro, amigo da família.
No Rio, antes de conseguir viver de música, Cassiano trabalhou como ajudante de pedreiro. O aprendizado musical começou com o pai, que lhe ensinou os primeiros acordes de violão e bandolim. Não demorou para que aquilo deixasse de ser apenas uma atividade de casa e passasse a ocupar cada vez mais espaço na vida dele.
A carreira profissional começou em 1964, quando Cassiano entrou para o Bossa Trio como violonista. O grupo surgiu em meio à cena de samba-jazz ligada à bossa nova, mas já incorporava referências do jazz e da música negra norte-americana. Foi nesse ambiente que Cassiano começou a desenvolver a linguagem que apareceria com mais força nos anos seguintes.
Depois do Bossa Trio, ele formou Os Diagonais ao lado do irmão Camarão e de Amaro. O grupo aprofundou a aproximação com a soul music e fez parte daquele primeiro momento da black music brasileira no fim dos anos 1960. Cassiano participou do disco lançado pelos Diagonais em 1969 e chamou atenção de outros músicos que circulavam pela mesma cena.
Cassiano estava no começo da carreira de Tim Maia
Um desses músicos era Tim Maia, que havia passado uma temporada nos Estados Unidos e voltado ao Brasil bastante influenciado pelo soul e pelo rhythm and blues. Cassiano compartilhava muitas dessas referências, entre elas Marvin Gaye, Otis Redding e Stevie Wonder.
Quando Tim gravou seu primeiro álbum, em 1970, Cassiano teve uma participação importante no repertório. Das 12 faixas do disco, quatro tinham sua assinatura: “Você Fingiu”, “Padre Cícero”, “Primavera (Vai Chuva)” e “Eu Amo Você”. As duas últimas, compostas com Silvio Rochael, se tornaram alguns dos maiores sucessos daquele início de carreira de Tim Maia.
Esse é um ponto importante quando se fala de Cassiano. Ele não apareceu depois que o soul brasileiro já estava estabelecido. Estava trabalhando com Tim Maia e Os Diagonais justamente no período em que essa música começava a ganhar uma forma própria no Brasil.
Os primeiros discos solo
O bom momento do primeiro disco de Tim Maia ajudou Cassiano a conseguir espaço para gravar seu próprio trabalho. Em 1971, saiu Imagem e Som, seu primeiro LP solo. O disco traz a versão do próprio Cassiano para “Primavera”, além de “Tenho Dito” e “Ela Mandou Esperar”, duas parcerias com Tim Maia.
Imagem e Som reunia samba, bossa nova, funk e soul dentro do repertório de Cassiano. Comercialmente, o disco não teve grande impacto na época, mas acabou sendo reavaliado com o passar dos anos e hoje ocupa um lugar importante dentro de sua discografia.
Em 1973, veio Apresentamos Nosso Cassiano. O segundo álbum tinha dez composições do cantor e apresentava um repertório mais amplo, com momentos próximos do pop, da psicodelia e do rock progressivo. “Cedo ou Tarde”, “Me Chame Atenção” e “Castiçal” estavam entre as faixas do disco. Mais uma vez, Cassiano recebeu reconhecimento artístico, mas ainda não havia conseguido um grande sucesso comercial.
Isso mudou a partir de 1975.
“A Lua e Eu”, “Coleção” e Cuban Soul: 18 Kilates
Cassiano conseguiu chegar a um público muito maior com “A Lua e Eu” e “Coleção”, músicas compostas em parceria com Paulo Zdanowski. As duas ganharam espaço nas rádios e também foram incluídas em trilhas de novelas da Globo. “A Lua e Eu” entrou em O Grito, enquanto “Coleção” apareceu em Locomotivas.
Em 1976, as duas músicas fizeram parte de Cuban Soul: 18 Kilates, o terceiro disco solo de Cassiano e o trabalho que acabou se tornando a principal referência de sua carreira. O álbum reúne soul e R&B com elementos da música brasileira e mostra Cassiano já com uma identidade muito bem definida como cantor, compositor e músico.
É também o disco mais indicado para quem quer começar a ouvir Cassiano além das músicas que ficaram conhecidas nas rádios. “A Lua e Eu” e “Coleção” são as faixas mais famosas, mas o álbum ajuda a entender melhor como ele trabalhava melodias, harmonias e arranjos.
A carreira começa a perder espaço no fim dos anos 1970
O sucesso de Cuban Soul não resolveu a relação de Cassiano com as gravadoras. Em 1978, a CBS decidiu não lançar um novo álbum que estava sendo preparado, alegando falta de perspectiva de retorno comercial. O projeto acabou interrompido.
Na mesma época, Cassiano passou a enfrentar problemas sérios de saúde. Uma doença pulmonar obrigou o cantor a retirar parte do pulmão, o que afetou diretamente sua possibilidade de continuar trabalhando com a mesma frequência. Sua produção diminuiu bastante a partir dali.
Durante os anos seguintes, Cassiano apareceu menos em discos e shows. Continuou compondo e mantendo contato com músicos, mas já não tinha o mesmo espaço na indústria que havia conquistado na metade da década de 1970.
O último disco
Cassiano só voltaria a lançar um álbum solo em 1991. Cedo ou Tarde reuniu Sandra de Sá, Ed Motta, Cláudio Zoli, Djavan, Luiz Melodia e Marisa Monte, além de trazer músicas antigas e algumas composições inéditas.
O resultado, porém, não agradou ao próprio Cassiano. Anos depois, ele reclamou da pouca participação que teve na direção musical do projeto e deixou claro que várias decisões foram tomadas pelo produtor. O disco acabou sendo o último trabalho solo de estúdio lançado durante sua vida.
Com isso, a discografia de Cassiano ficou limitada a quatro álbuns: Imagem e Som (1971), Apresentamos Nosso Cassiano(1973), Cuban Soul: 18 Kilates (1976) e Cedo ou Tarde (1991).
Cassiano continuou sendo ouvido mesmo longe dos estúdios
A pouca quantidade de discos não impediu que suas músicas continuassem circulando. “Coleção” e “A Lua e Eu” ganharam novas gravações, enquanto “Primavera” e “Eu Amo Você” permaneceram entre as músicas mais conhecidas do repertório de Tim Maia.
Em 2000, Ed Motta produziu a coletânea Cassiano Coleção, reunindo 14 faixas retiradas dos três discos lançados por Cassiano nos anos 1970. O projeto ajudou a colocar novamente parte daquele repertório em circulação para um público que não tinha acompanhado os lançamentos originais.
Cassiano também passou a ser citado por artistas de outra geração. Um dos exemplos mais conhecidos está em “Vida Loka, Pt. 2”, dos Racionais MC’s. Mano Brown cita o cantor diretamente na música, numa referência que ajudou muita gente mais nova a procurar saber quem era aquele Cassiano mencionado no verso.
Esse tipo de presença ajuda a explicar por que seu nome continuou aparecendo mesmo durante os muitos anos em que ele esteve praticamente fora do mercado fonográfico.
Um nome fundamental do soul brasileiro
Cassiano morreu em 7 de maio de 2021, no Rio de Janeiro, aos 77 anos, depois de anos convivendo com problemas pulmonares.
Neste 16 de setembro, quando completaria 83 anos, vale olhar para sua carreira sem resumir tudo ao rótulo de “artista esquecido”. Cassiano teve músicas de enorme sucesso, participou de um disco fundamental de Tim Maia, gravou trabalhos importantes e influenciou músicos que vieram depois. O problema é que seu nome acabou ficando menos conhecido do que várias das músicas que escreveu.
Para quem ainda conhece pouco, Cuban Soul: 18 Kilates é o melhor ponto de partida. Depois dele, Imagem e Som e Apresentamos Nosso Cassiano mostram com mais clareza como Cassiano foi construindo seu repertório antes de chegar ao período de maior sucesso.
Quatro discos solo não parecem muito. No caso de Cassiano, são suficientes para entender por que ele continua sendo citado sempre que a história do soul brasileiro é levada a sério.

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