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Curadoria musica, memória e cultura popular brasileira.
Projeto cultural independente.
No dia 6 de setembro de 2026, Rodrigo Amarante completa 50 anos. Meio século de vida e quase três décadas de uma trajetória que dificilmente pode ser resumida apenas pelos Los Hermanos.
A banda certamente ocupa um espaço enorme nessa história, mas talvez uma das características mais interessantes de Amarante seja justamente sua capacidade de não permanecer preso ao lugar onde ficou conhecido.
Quando o sucesso chegou, ele procurou outros caminhos. Quando já havia conquistado grandes plateias, voltou a tocar para poucas dezenas de pessoas. Quando poderia continuar vivendo de uma identidade construída no Brasil, mudou de país e descobriu como era apresentar sua música para quem não fazia ideia de quem ele era.
De alguma forma, Rodrigo Amarante transformou o recomeço em parte fundamental de sua obra.
De coadjuvante a uma das forças criativas dos Los Hermanos
Rodrigo Amarante conheceu Marcelo Camelo e Rodrigo Barba durante o período em que estudava Jornalismo na PUC do Rio de Janeiro. Depois de acompanhar alguns ensaios dos Los Hermanos, acabou entrando para o grupo.
No primeiro disco da banda, lançado em 1999, sua participação como compositor ainda era pequena. Amarante tocava flauta transversal, fazia vocais e assinava apenas duas músicas, “Quem Sabe” e “Onze Dias”.
Isso começou a mudar em Bloco do Eu Sozinho, de 2001.
Foi ali que sua identidade como compositor apareceu com muito mais força. “Sentimental”, “Retrato pra Iaiá” e “Cher Antoine” levavam sua assinatura, enquanto outras músicas também contavam com sua participação criativa.
Dois anos depois, em Ventura, Amarante já ocupava outro lugar dentro do grupo. Escreveu cinco faixas do álbum, entre elas algumas das canções mais queridas do repertório dos Los Hermanos: “Último Romance”, “O Velho e o Moço” e “Do Sétimo Andar”.
Em 4, lançado em 2005, vieram outras cinco composições, incluindo “O Vento”, “Condicional” e “Primeiro Andar”.
Em poucos anos, aquele músico que aparecia discretamente tocando flauta no primeiro álbum havia se tornado uma das principais forças criativas de uma das bandas brasileiras mais populares de sua geração.
Quando o sucesso começou a incomodar de outra maneira
Os Los Hermanos cresceram rapidamente durante os anos 2000. Os shows ficaram maiores, as músicas ganharam um público extremamente fiel e Amarante passou a ser reconhecido onde estivesse.
Ele nunca descreveu a fama simplesmente como algo ruim. Pelo contrário, sempre reconheceu o privilégio que teve ao conseguir viver de música e ajudar a própria família.
O incômodo era outro.
Com o tempo, ficou cada vez mais difícil conhecer alguém que não tivesse alguma opinião prévia sobre ele. Antes mesmo de se apresentar, já existia uma imagem pronta de quem seria Rodrigo Amarante, construída pelas músicas, pelos shows, pelas entrevistas e pela relação intensa que o público mantinha com os Los Hermanos.
Quando a banda anunciou um recesso por tempo indeterminado em 2007, esse cenário mudou completamente.
E foi justamente nesse momento que surgiu uma das viradas mais importantes de sua vida.
De grandes plateias a clubes com 40 pessoas
A mudança para os Estados Unidos não nasceu de um plano cuidadosamente traçado.
Rodrigo foi para a Califórnia para gravar com Devendra Banhart. Durante aquele período, recebeu um convite de Fabrizio Moretti, brasileiro radicado nos Estados Unidos e baterista dos Strokes.
O que inicialmente seria apenas uma colaboração acabou virando uma banda.
Ao lado de Moretti e da cantora Binki Shapiro, Amarante formou o Little Joy, cujo primeiro álbum foi lançado em 2008.
Para alguém que havia acabado de sair de uma das maiores bandas do Brasil, a experiência poderia parecer um enorme passo para trás.
Não foi assim que ele enxergou.
Durante uma turnê americana do Little Joy, a banda chegou a fazer 30 shows em 38 dias, passando por 29 cidades. Eles mesmos dirigiam a van, descarregavam os instrumentos, montavam o palco, passavam o som e vendiam discos e camisetas depois das apresentações.
Em uma dessas noites, Rodrigo se preparava para tocar diante de cerca de 40 pessoas em Oklahoma City.
Pouco tempo antes, milhares cantavam suas músicas no Brasil.
Agora, quase ninguém naquela sala conhecia sua história.
Para Amarante, isso fazia sentido. Little Joy era uma banda nova. Não importava que ele tivesse vindo dos Los Hermanos ou que Fabrizio tocasse nos Strokes. Aquelas pessoas precisavam ser conquistadas novamente.
A liberdade de voltar a ser desconhecido
Viver nos Estados Unidos trouxe algo que Rodrigo já não conseguia encontrar facilmente no Brasil: anonimato.
A mudança também colocou o músico diante de outra língua, outra cultura e outro público.
Ele já falou sobre o desconforto de viver em um lugar onde não dominava completamente o idioma, mas também sobre a riqueza dessa condição. Ser estrangeiro permitiu que colocasse sua música à prova de uma maneira diferente.
Ali não existia a segurança de um público que conhecia cada verso dos Los Hermanos.
Era possível cantar em português para americanos e simplesmente observar o que acontecia. Era possível escrever em inglês mesmo sem ter nascido falando aquela língua. Era possível errar.
Era possível recomeçar.
Rodrigo chegou a dizer que provavelmente teria citado Los Angeles, anos antes, como um lugar onde jamais imaginaria morar.
Acabou ficando.
O isolamento que deu origem a Cavalo
Depois de Los Hermanos, Orquestra Imperial e Little Joy, ainda faltava uma experiência importante: estar completamente sozinho diante da própria música.
Esse processo resultou em Cavalo, primeiro álbum solo de Rodrigo Amarante, lançado em 2013.
O músico descreveu aquele período como uma espécie de exílio. Estava distante do Brasil, dos amigos, da língua e das referências que haviam acompanhado toda sua formação.
A distância acabou criando uma oportunidade de olhar para si mesmo com mais atenção.
Segundo Amarante, foi possível perceber melhor suas saudades e confrontar a ideia que tinha de sua própria identidade.
Essa busca atravessa Cavalo.
O álbum mistura português, inglês e francês e apresenta uma música que não precisava responder às expectativas de nenhuma banda anterior.
Rodrigo também pensava o processo criativo como uma relação entre duas forças. Uma mais impulsiva, responsável pela vontade de criar, e outra mais racional, capaz de observar, escolher e trabalhar aquilo que surgia.
Daí veio parte do significado do título.
O cavalo e o cavaleiro como duas forças que aprendem a se mover juntas.
Menos excesso, mais espaço para quem escuta
A maneira como Amarante fala sobre composição ajuda a entender boa parte de sua música.
Para ele, uma obra não deveria entregar todas as respostas. A arte poderia funcionar como uma espécie de espelho, deixando espaço para que cada pessoa encontrasse algo de si mesma dentro daquilo que escuta.
Durante a criação de Cavalo, Rodrigo também buscou eliminar elementos que considerava desnecessários.
Ele já contou que foi marcado por uma ideia atribuída a Carlos Drummond de Andrade sobre a importância de retirar excessos da poesia.
Isso influenciou letras, arranjos e até a capa do álbum.
Em vez de preencher cada espaço disponível, Amarante passou a valorizar aquilo que não precisava ser explicado.
Talvez venha daí parte da sensação causada por suas músicas. Elas raramente parecem interessadas em oferecer uma única interpretação.
“Tuyo” e uma música brasileira que atravessou o mundo
Dois anos depois de Cavalo, uma encomenda para uma série da Netflix acabaria produzindo uma das músicas mais conhecidas de sua carreira.
Em 2015, Rodrigo escreveu “Tuyo”, tema de abertura de Narcos.
A ideia era abordar Pablo Escobar a partir de um ponto de vista inesperado, imaginando o personagem não somente como o narcotraficante conhecido mundialmente, mas como alguém observado por uma pessoa que o amava.
O resultado foi uma canção cantada em espanhol, com uma atmosfera delicada que contrastava fortemente com a violência da história apresentada pela série.
“Tuyo” ganhou projeção internacional e chegou a receber uma indicação ao Emmy.
Para muita gente fora do Brasil, Rodrigo Amarante deixou de ser o músico de uma banda brasileira desconhecida para se tornar simplesmente a voz daquela música que abria uma das séries mais populares do mundo.
Era outro começo.
Mais ouvido em Paris do que no Rio
A carreira internacional continuou crescendo nos anos seguintes.
Amarante passou a circular por diferentes países e percebeu uma situação que seria difícil imaginar durante os primeiros anos dos Los Hermanos.
Em uma entrevista de 2021, contou que sua música naquele momento era mais ouvida em Paris do que no Rio de Janeiro.
Não significava um rompimento com o Brasil. Rodrigo continuava compondo em português, retornando ao país e participando das reuniões dos Los Hermanos.
Sua música simplesmente havia encontrado outras geografias.
O músico que um dia precisou conquistar pequenas salas nos Estados Unidos tinha construído um público espalhado pelo mundo.
Oito anos entre Cavalo e Drama
Depois de Cavalo, Rodrigo não correu para lançar outro álbum.
Foram oito anos até a chegada de Drama, em 2021.
O intervalo não significou inatividade. Nesse período vieram “Tuyo”, turnês, trilhas sonoras e diferentes trabalhos.
Drama ampliou algumas questões que já apareciam em sua obra, mas também trouxe outras preocupações.
O álbum fala sobre vulnerabilidade, relações, masculinidade, afeto e a dificuldade de pedir ajuda.
Em “Tango”, por exemplo, Rodrigo utilizou a dança como metáfora para uma relação baseada em confiança, colaboração e na capacidade de se colocar em uma posição vulnerável diante do outro.
O disco também mostrou mais uma vez sua falta de interesse em simplesmente repetir aquilo que havia funcionado anteriormente.
Entre Cavalo e Drama, havia o mesmo músico, mas não exatamente a mesma pessoa.
Aos 50, ainda sem transformar nenhuma fase em ponto final
Rodrigo Amarante chega aos 50 anos carregando uma trajetória difícil de encaixar em uma única definição.
Ele foi integrante dos Los Hermanos, participou da Orquestra Imperial, criou o Little Joy, construiu uma carreira solo, escreveu uma das músicas mais reconhecidas internacionalmente de um artista brasileiro nas últimas décadas e colaborou com nomes como Devendra Banhart, Marisa Monte, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e Lanny Gordin.
Mas talvez uma lista de trabalhos ainda explique pouco.
O que torna sua trajetória particularmente interessante é a disposição para abandonar temporariamente lugares onde já estava confortável.
Depois de multidões, vieram salas quase vazias.
Depois de uma identidade construída coletivamente, veio um disco profundamente pessoal.
Depois do Brasil, outro idioma e outro público.
Depois de Cavalo, oito anos até encontrar um motivo para fazer Drama.
Rodrigo Amarante nunca precisou apagar aquilo que veio antes para seguir adiante. Apenas parece ter entendido que uma conquista não precisa determinar aquilo que vem depois.
Aos 50 anos, talvez seja essa uma das melhores formas de compreender sua trajetória.
A arte de começar tudo outra vez sem precisar começar do zero.
Vida longa a Rodrigo Amarante.

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