Rogério Skylab e a liberdade de ser contraditório

Aos 70 anos, o compositor, escritor e leitor apaixonado reúne uma trajetória de música independente, experimentação e opiniões próprias. Dos primeiros discos às trilogias e aos livros, celebramos a história de Rogério Skylab.

Rogério Skylab completa 70 anos neste 2 de setembro de 2026. São mais de três décadas desde o lançamento de Fora da Grei, seu primeiro álbum, e uma produção que continuou crescendo entre os shows, as aparições na televisão, as entrevistas e as leituras.

“Matador de Passarinho” tornou-se um clássico de seu repertório. Vieram também os sambas, os discos experimentais, as parcerias com músicos de diferentes gerações e os livros de poesia, crítica e ficção. O público foi se renovando enquanto Skylab encontrava outras maneiras de compor e apresentar seu trabalho.

Sua história passa por lugares que ajudam a compreender essas escolhas: o bairro do Rio Comprido, as bibliotecas, a universidade, uma agência do Banco do Brasil, os festivais de música e os palcos do circuito independente. É por eles que a Carangas percorre a trajetória desse querido da música brasileira.

Os livros antes dos discos

Nascido Rogério Tolomei Teixeira, no Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 1956, Skylab cresceu no Rio Comprido. Filho de um advogado e de uma dona de casa, descreveu sua formação intelectual como um processo construído aos poucos, com descobertas que nem sempre aconteceram dentro da universidade.

Uma de suas primeiras lembranças de leitura é uma edição de Robin Hood, em tradução de Monteiro Lobato, recebida de uma tia. Leu diariamente e chegou a chorar quando percebeu que a história estava acabando.

Na adolescência, sua irmã levou para casa livros de Machado de Assis e João Cabral de Melo Neto. A primeira impressão foi péssima: achou os dois chatíssimos. Mais tarde, Machado se tornaria sua maior referência literária, e João Cabral, o poeta brasileiro que mais admirava.

Clarice Lispector teve um papel decisivo nessa aproximação com os livros. Uma professora de português lhe presenteou com Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Skylab já escrevia poemas e gostava de Drummond, mas atribuiu à leitura de Clarice um aprofundamento de seu interesse pela literatura.

O estudo acabou se tornando um hábito duradouro. Em perfil publicado no jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, contou que chegava a passar seis horas por dia lendo em bibliotecas. Frequentou a Biblioteca Nacional, a do Centro Cultural Banco do Brasil e a da PUC. Perfil de Omar Godoy no Cândido.

O emprego que ajudou a sustentar a música

Skylab passou pelos cursos de Direito e Letras e se formou em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante boa parte dessa formação e de sua carreira artística, também manteve o emprego no Banco do Brasil.

Em entrevista à revista Continente, contou que entrou no banco em 1977 e se aposentou em 2010. Trabalhou fora do Rio, viveu em Salvador e conciliou o expediente com os estudos e, posteriormente, com a música. Segundo seu próprio relato, a rotina profissional restringiu durante anos suas apresentações principalmente ao eixo Rio–São Paulo. Entrevista à Continente, de novembro de 2025.

A estabilidade também foi importante para produzir os discos. Com uma fonte de renda regular, podia assumir os custos de um trabalho que circulava fora das grandes estruturas da indústria fonográfica.

Ao recordar a gravação do primeiro álbum, contou que aproveitou uma licença do banco para entrar em estúdio:

“Enquanto meus colegas de trabalho iam para Miami fazer compras, eu me tranquei no estúdio e gravei um disco.”

O emprego financiava parte dessa autonomia, embora também limitasse o tempo disponível para os palcos. Depois da aposentadoria, viajar pelo Brasil passou a ocupar um espaço maior em sua vida.

De “Samba do Skylab” a “Matador de Passarinho”

O nome artístico nasceu de “Samba do Skylab”, uma composição inspirada na estação espacial americana e na expectativa em torno de sua queda. A música acabou emprestando seu nome ao compositor, embora ele tenha contado que nunca gostou muito daquele samba.

Antes da estreia em disco, Rogério já participava de festivais e havia passado pela banda Setembro Negro. Em 1992, lançou Fora da Grei, um LP independente com produção de João Ataíde. O repertório incluía “Naquela Noite”, “Palavras São Voláteis” e a faixa que dava nome ao álbum. Registro de Fora da Grei no Dicionário Cravo Albin.

Em 1999, saiu Skylab, produzido por Robertinho de Recife. Era o começo de uma série de dez discos numerados, encerrada com Skylab X, em 2011. A sequência incluiu gravações de estúdio e registros ao vivo, acompanhando o desenvolvimento das canções e sua relação com a plateia.

“Matador de Passarinho”, “Motosserra” e “Carrocinha de Cachorro-Quente” estavam entre as músicas que se tornaram conhecidas nesse período. Sexo, morte, violência e situações absurdas apareciam em letras que o público aprendia a cantar junto.

As apresentações nos programas de Jô Soares deram uma dimensão nacional àquela figura que já circulava pelo circuito independente. A televisão se tornou um espaço importante para divulgar seus discos e encontrar ouvintes que dificilmente chegariam até eles pelos meios tradicionais.

A composição por trás do absurdo

A reação de espanto diante das letras é uma parte conhecida dessa história. Nas explicações de Skylab sobre seu trabalho, aparecem também questões bastante concretas de composição: a relação entre letra e melodia, a repetição, os arranjos e a maneira de interpretar.

Ao conversar com Marcio Tito, em 2021, ele descreveu um procedimento presente nos primeiros discos: aproximar uma melodia construída com acordes convencionais de uma letra que provocasse estranhamento. Citou “Naquela Noite” como exemplo de uma canção em que som e palavras apontavam para direções diferentes.

Depois, o contato com trabalhos de Zumbi do Mato e Damião Experiença estimulou outra busca. Passou a se interessar por alterar também o som, acrescentando dissonâncias e construções menos previsíveis. Essas possibilidades continuaram convivendo em sua música.

Na mesma entrevista, explicou que, em seu processo de composição, o ritmo e a melodia podiam surgir antes das palavras. O sentido se formava à medida que as sílabas encontravam lugar na estrutura musical:

“Eu não digo o que eu quero, eu digo o que a canção quer que eu diga.”

A observação ajuda a entender a atenção que ele dedica à forma das músicas, inclusive quando o primeiro contato do ouvinte acontece por uma frase escatológica ou um refrão absurdo. Entrevista de Skylab a Marcio Tito.

Os carnavais de Rogério Skylab

Depois de concluir Skylab X, o compositor aprofundou sua relação com o samba e a bossa nova. A Trilogia dos Carnavais reuniu Abismo e Carnaval, de 2012, Melancolia e Carnaval, de 2014, e Desterro e Carnaval, de 2015.

Nesses trabalhos, a melancolia ganhou mais espaço, acompanhada por uma aproximação com diferentes formas da canção brasileira. A ironia e os assuntos desconcertantes permaneceram no repertório, agora em outras combinações musicais.

A trilogia também reuniu convidados como Jards Macalé, Jorge Mautner, Arrigo Barnabé e Fausto Fawcett. Em Desterro e Carnaval, Skylab compôs com Michael Sullivan a canção “Desde Quando Eu Era Bem Menino” e com Fawcett a faixa “A Árvore”. Arrigo participou de “Lívia”, versão de “Delia’s Gone”, associada ao repertório de Johnny Cash. Reportagem de Mariana Peixoto sobre Desterro e Carnaval.

Essas parcerias ajudam a dimensionar a variedade de suas referências. O artista que defendia a ruptura com padrões da MPB também encontrava, dentro da própria música brasileira, compositores com quem queria trabalhar.

Do cu ao cosmos, a discografia continuou

Entre 2016 e 2018, Skylab lançou uma trilogia em colaboração com Livio Tragtenberg, compositor e saxofonista ligado à música experimental.

Em seguida, veio a Trilogia do Cu, formada por O Rei do Cu, Nas Portas do Cu e Crítica da Faculdade do Cu. Os títulos mantinham a provocação explícita que acompanhava sua imagem, dentro de uma discografia que já havia passado por muitas mudanças de sonoridade.

A partir de 2020, iniciou o projeto do Cosmos, com Cosmos, Os Cosmonautas e os três volumes de Caos e Cosmos. A organização resultou em uma trilogia que continha outra trilogia em seu interior.

O terceiro volume de Caos e Cosmos, lançado em 2023, apresentou um trabalho instrumental. As faixas receberam nomes de ruas e lugares ligados a episódios trágicos da história política brasileira. Mesmo sem letras, o disco estabelecia um assunto por meio de seus títulos e de sua concepção. Reportagem de Ricardo Schott sobre Caos e Cosmos 3.

A produção prosseguiu com a Trilogia do Fim, em 2024, e a Trilogia da Putrefação, em 2025. Quem acompanha esses lançamentos encontra um compositor que segue organizando projetos, estabelecendo novas parcerias e acrescentando repertório à própria história. Discografia no Apple Music.

O escritor que continuou publicando

A literatura ganhou seus próprios livros ao longo dessa trajetória. Em 2006, Skylab publicou a coletânea de sonetos Debaixo das Rodas de um Automóvel. O título passou a integrar uma produção que incluiria poesia, ensaios políticos, crítica musical e ficção.

Em A Outra Volta da Outra Volta: Um Estudo Sobre Henry James, de 2022, dedicou-se à leitura da obra do escritor, especialmente de A Outra Volta do Parafuso. Já A Melodia Trágica, de 2023, reuniu reflexões sobre música brasileira, dando continuidade ao trabalho de crítica que desenvolvia em seu blog, o Godard City.

Também publicou Lulismo Selvagem e a coletânea de poemas Futebol de Cego. A produção de ficção prosseguiu com Homem-Urubu, em 2025, e Homem-Rato, em 2026. A página deste último, publicado pela Kotter, apresenta contos que retomam o interesse do autor pelo absurdo e por personagens à margem. Homem-Rato, na Kotter Editorial.

Os livros permitem acompanhar outras formas de sua escrita. Há diferenças entre construir uma letra para uma melodia, trabalhar um soneto, analisar um compositor e desenvolver uma narrativa. Skylab dedicou tempo a cada uma dessas atividades.

O músico que também queria fazer perguntas

Durante três temporadas, Skylab apresentou Matador de Passarinho, no Canal Brasil. O programa lhe permitiu escolher convidados e conversar sobre suas trajetórias, seus trabalhos e a história da música.

Entre os entrevistados estiveram Elza Soares, Jards Macalé, Arrigo Barnabé e Luiz Tatit. Ao recordar o programa, destacou o orgulho que sentia daqueles encontros e das mais de 80 entrevistas realizadas.

A experiência acrescentou outra dimensão à sua presença na televisão. O músico conhecido pelas participações no Jô passou a conduzir conversas, mobilizando as leituras e o conhecimento de repertório que acumulava havia anos.

Esse interesse pela produção dos outros também aparece no podcast Contemporâneos, realizado com Paulo Almeida e Marcos Lacerda, dedicado à análise de discos brasileiros lançados a partir de 2000.

Admirar, discordar e continuar ouvindo

Skylab tem opiniões fortes sobre a música brasileira. Em entrevista à Dynamite, em 2002, questionava os rumos do rock nacional e defendia a necessidade de romper com padrões da MPB. Ao falar de Skylab III, dava destaque a artistas e experiências que considerava pouco reconhecidos, construindo sua própria seleção de referências. Entrevista de 2002, republicada no Rock em Geral.

Ao longo dos anos, suas críticas atingiram tanto nomes consagrados quanto músicos contemporâneos. A familiaridade com uma obra podia resultar em admiração e também em desacordo com os caminhos escolhidos por seu autor.

Na entrevista à Continente, em 2025, fez uma avaliação bastante positiva da música brasileira atual. Citou Siba, Zé Manoel e Ava Rocha e rejeitou a ideia de que a produção recente fosse necessariamente inferior à do passado. Seu interesse pelos discos novos aparecia na pesquisa para o podcast e na disposição para discutir artistas que surgiram depois de sua geração.

Na mesma conversa, declarou: “A camisa de força da ideologia me incomoda.” Identificado com a esquerda, defendia sua autonomia artística e o desejo de falar com públicos diferentes. A televisão aberta e os podcasts lhe interessavam justamente pela possibilidade de alcançar muita gente. Entrevista de Marcelo Abreu com Skylab.

A liberdade de ser contraditório aparece nessas relações: conhecer uma tradição e discutir com ela, querer reconhecimento e continuar fazendo escolhas que podem desagradar, rever o gosto por um escritor ou levar a música para outra direção.

Setenta anos e muita coisa para conhecer

O aniversário de Rogério Skylab encontra uma obra que cresceu bastante desde os primeiros discos e das aparições no Jô. Há canções que se tornaram conhecidas por públicos de diferentes idades, álbuns inteiros para descobrir, livros e entrevistas que registram seu modo de pensar.

Aos 70 anos, segue compondo, escrevendo e fazendo shows. Sua história merece ser celebrada pelo trabalho que realizou e pela disposição de continuar produzindo.

Hoje, a Carangas comemora a vida desse compositor, escritor e leitor apaixonado que ocupa um lugar tão particular na música brasileira.

Feliz aniversário, querido Rogério Skylab. Vida longa!

Você já assistiu a um show do Skylab? Conte nos comentários onde foi e qual momento daquela apresentação ficou na sua memória.

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