Nara Leão ganha álbum póstumo com gravações inéditas da bossa nova

Quando se fala em bossa nova, o nome de Nara Leão surge quase automaticamente. Mesmo sem nunca ter buscado esse título, ela acabou sendo consagrada como a musa do movimento, muito mais pela força simbólica de sua presença do que por uma escolha consciente da própria cantora. Ao longo da carreira, Nara sempre levou o repertório da bossa para os palcos, mas curiosamente manteve uma relação mais distante desse cancioneiro quando o assunto era disco.

Essa reaproximação mais clara só aconteceu em 1971, quando Nara lançou um LP duplo gravado em Paris, revisitando a bossa nova de forma madura, crítica e pessoal. Agora, mais de três décadas após sua morte, esse reencontro ganha um novo capítulo com o lançamento de um álbum póstumo que ajuda a ampliar ainda mais o entendimento sobre sua trajetória.

“A bossa rara de Nara” chega com gravações inéditas

No próximo domingo, 25 de janeiro, chega às lojas o álbum “A bossa rara de Nara”, trazendo oito gravações inéditas de músicas profundamente associadas à história da bossa nova. São registros que permaneciam guardados e desconhecidos do público, oferecendo uma nova escuta para um repertório que atravessa gerações.

As gravações foram encontradas em 2025, pelo produtor musical Raymundo Bittencourt, durante uma organização de materiais em seu estúdio. O conteúdo estava armazenado em uma fita DAT, sem data registrada, mas tudo indica que os registros tenham sido feitos ao longo dos anos 1980, período em que Nara voltou a se aproximar do universo da bossa em shows e discos, especialmente ao lado de Roberto Menescal.

Recuperação cuidadosa e novos arranjos

Após encontrar o material, Raymundo Bittencourt realizou um trabalho minucioso de recuperação e digitalização da voz de Nara Leão. A decisão foi preservar apenas o vocal original, descartando o violão presente nas gravações, para então construir um novo acompanhamento instrumental que respeitasse a delicadeza e o espírito da cantora.

Além do próprio Bittencourt no violão, o projeto reuniu músicos que ajudaram a dar corpo a esses registros: Diógenes de Souza no baixo, João Cortez na bateria e Leandro Freixo na flauta e nos teclados. O resultado é um disco que soa atual sem perder o vínculo com a estética clássica da bossa nova.

O repertório do álbum “A bossa rara de Nara”

Com esse novo acompanhamento, Nara Leão revisita clássicos absolutos da música brasileira, reafirmando sua leitura única, contida e profundamente expressiva. O álbum traz as seguintes faixas:

  • Chega de saudade, de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, de 1958
  • Fotografia, de Antonio Carlos Jobim, de 1959
  • Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antonio Maria, de 1959
  • Tristeza de nós dois, de Maurício Einhorn, Bebeto Castilho e Durval Ferreira, de 1960
  • O barquinho, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, de 1961
  • Você e eu, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, de 1961
  • Diz que fui por aí, de Zé Ketti e Hortênsio Rocha, de 1964
  • Wave, de Antonio Carlos Jobim, de 1967

Um lançamento que amplia o legado de Nara Leão

Mais do que um álbum de resgate, “A bossa rara de Nara” funciona como um documento histórico e afetivo. Ele mostra uma artista que nunca se prendeu a rótulos, que transitou entre a bossa nova, a canção de protesto, o samba e a música popular com curiosidade e inteligência raras.

Para quem acompanha a história da MPB, o disco ajuda a entender melhor a relação complexa, crítica e ao mesmo tempo amorosa que Nara Leão manteve com a bossa nova ao longo da vida. Para quem está chegando agora, é uma porta de entrada sensível e honesta para uma das vozes mais importantes da música brasileira.

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