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A Fundação Oswaldo Cruz concedeu o título de Doutor Honoris Causa a Milton Nascimento, reconhecendo oficialmente a dimensão cultural, política e humanista de um dos maiores artistas da música brasileira. A cerimônia aconteceu em Belo Horizonte, reunindo pesquisadores, trabalhadores da instituição, autoridades e convidados, em um encontro simbólico entre arte, ciência e saúde pública.
Impedido de comparecer, Milton foi representado pelo maestro Wilson Lopes, parceiro musical há mais de 40 anos. A abertura do evento teve forte carga emocional, com o coral FioCantos de Minas interpretando Maria Maria, Caçador de Mim e uma versão instrumental de Canção da América, reafirmando o impacto afetivo e coletivo da obra do artista.
Arte como resistência, memória e defesa dos direitos humanos
A decisão, aprovada por unanimidade pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz, reconhece mais de seis décadas de produção artística comprometida com a denúncia das injustiças sociais, a valorização das identidades brasileiras e a defesa da democracia. Desde o início de sua carreira, Milton Nascimento transformou a música em ferramenta de enfrentamento político, especialmente durante a ditadura militar, quando recorreu a metáforas, experimentalismos sonoros e soluções poéticas para driblar a censura.
A cerimônia ocorreu na sede da Fiocruz Minas, reforçando o diálogo entre cultura e saúde, pilares centrais da atuação da instituição.
Cultura também é saúde
A diretora da Fiocruz Minas, Cristiana Brito, destacou que a escolha de Milton Nascimento está diretamente ligada ao conceito ampliado de saúde defendido pela Fundação.
“Quando perguntam o que um músico tem a ver com a Fiocruz, a resposta está no nosso entendimento de saúde. Ela não se limita ao biológico. Envolve determinantes sociais, cultura, pertencimento e dignidade”, afirmou.
Segundo Brito, Milton vai além do papel de ícone musical. Sua trajetória representa engajamento político, sensibilidade social e inspiração coletiva, atravessando fronteiras geográficas e geracionais com uma obra que segue oferecendo esperança em contextos de crise.
Canções que se tornaram símbolos históricos
A produção de Milton Nascimento ocupa lugar central na história recente do Brasil. Algumas obras se consolidaram como marcos de resistência e transformação social, entre elas:
- Milagre dos Peixes (1974), em que vocalizações substituíram letras censuradas pelo regime militar
- Maria, Maria (1978), um hino de valorização da mulher, especialmente da mulher negra
- Missa dos Quilombos (1981), celebração da espiritualidade e da resistência dos povos negros e pobres
- Coração de Estudante (1983), eternizada como trilha das Diretas Já
- San Vicente (1999), que reafirma sua identidade latino-americana e visão política continental
Essas canções ajudaram a construir memória coletiva, fortalecer lutas sociais e traduzir emoções compartilhadas por gerações.
Compromisso histórico com os povos indígenas
Outro aspecto fundamental da trajetória de Milton Nascimento é sua relação profunda com os povos originários. Desde os anos 1970, o artista estabeleceu vínculos com diferentes etnias indígenas, experiência que culminou no projeto Txai, lançado em 1991 após vivências com povos da floresta no Acre, especialmente os ashaninka.
Em 2010, Milton foi batizado pelos guarani kaiowá, no Mato Grosso do Sul, reafirmando publicamente seu compromisso com a defesa dos territórios, da cultura e da sobrevivência física e simbólica dos povos indígenas no Brasil.
Democracia, cidadania e saúde mental
Representando a Presidência da Fiocruz, a coordenadora de Relações Interinstitucionais, Zélia Profeta, ressaltou que a homenagem reafirma o papel histórico da instituição na defesa da vida e da democracia.
“Autores como Milton Nascimento constroem cidadania. Sua arte é resistência, denúncia e defesa do respeito aos povos”, afirmou.
Para ela, em períodos de crise política, social e sanitária, a cultura e a música são essenciais para a saúde mental, a preservação da memória coletiva e o fortalecimento dos vínculos sociais.
O encontro entre grandes legados
Visivelmente emocionado, Wilson Lopes relembrou sua trajetória ao lado de Milton Nascimento, marcada não apenas por parcerias musicais, mas por uma amizade profunda. Ao receber a honraria em nome do artista, destacou a dimensão humana de Milton.
“Milton é imenso como músico e como pessoa. Sua obra é estudada no mundo inteiro, e o Brasil ainda precisa reconhecer plenamente o tamanho do gênio que ele é”, afirmou.
Segundo o maestro, a cerimônia simboliza um encontro raro e necessário. “Os tamanhos se encontram. Arte, ciência e saúde caminham juntas quando o objetivo é a defesa da vida”.
Quem é Milton Nascimento
Nascido no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1942, Milton Nascimento cresceu em Minas Gerais após ficar órfão de mãe ainda bebê. Criado por Lília e Josino Campos, teve sua formação musical incentivada desde cedo. Aos 13 anos ganhou o primeiro violão e, na juventude, integrou o movimento que daria origem ao Clube da Esquina, ao lado de Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges e Fernando Brant.
Ao longo da carreira, lançou cerca de 47 álbuns, participou de 13 filmes, conquistou quatro prêmios Grammy e se consolidou como um dos artistas brasileiros mais respeitados e influentes no Brasil e no exterior.
O título concedido pela Fiocruz não apenas homenageia um músico, mas reconhece um legado que conecta arte, política, saúde e humanidade.

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