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Em 22 de junho de 2026, Hermeto Pascoal completaria 90 anos. A data convida a revisitar a trajetória de um artista que passou mais de sete décadas expandindo os limites da música brasileira sem jamais demonstrar qualquer preocupação em caber dentro de um gênero, movimento ou escola. Em uma época em que a indústria costuma trabalhar com rótulos bem definidos, Hermeto construiu uma obra que escapa de classificações fáceis. Foi sanfoneiro, pianista, flautista, saxofonista, arranjador, compositor e improvisador. Foi também um pesquisador obsessivo dos sons que nos cercam.
Ao longo da carreira, tornou-se conhecido pela capacidade de transformar elementos aparentemente banais em matéria-prima musical. Chaleiras, copos d’água, brinquedos, vozes, animais e ruídos cotidianos passaram a fazer parte de seu universo criativo. Não como curiosidades ou truques de palco, mas como consequência de uma visão artística que enxergava música em praticamente tudo.
Essa forma de pensar fez de Hermeto uma figura única na história da cultura brasileira. Admirado por nomes como Miles Davis, Chick Corea e Herbie Hancock, ele conseguiu algo raro: dialogar com músicos do mundo inteiro sem abandonar as referências que carregava desde a infância no interior de Alagoas.
O menino de Lagoa da Canoa que ouvia música em tudo
A história de Hermeto Pascoal começa em Lagoa da Canoa, município localizado no agreste alagoano. Nascido em 1936, filho de um sanfoneiro, cresceu em um ambiente onde a música fazia parte da vida cotidiana. As festas populares, os forrós, as bandas locais e os sons da natureza formaram o primeiro repertório sonoro daquele que se tornaria um dos músicos mais inventivos do Brasil.
Diversos relatos sobre sua infância apontam para uma característica que o acompanharia por toda a vida: a curiosidade. Hermeto passava horas observando os sons ao seu redor. Fazia instrumentos improvisados com materiais simples, reproduzia cantos de pássaros e se interessava por qualquer ruído capaz de despertar sua atenção. Muitos anos depois, quando passou a incorporar sons inusitados às suas composições, ficava evidente que aquela relação com o ambiente não era uma excentricidade adquirida na vida adulta. Era algo presente desde os primeiros anos.
A sanfona foi o instrumento que abriu as portas para a música profissional. Ainda adolescente, tocava ao lado do irmão José Neto em festas da região. O talento chamou atenção rapidamente e, em 1950, aos 14 anos, deixou Alagoas para tentar a vida no Recife. A mudança representou um passo importante em sua formação. Além de ampliar suas oportunidades profissionais, colocou Hermeto em contato com músicos experientes e com uma cena musical muito mais diversa do que aquela que conhecia no interior.
Foi nesse período que surgiu a amizade com Sivuca. Os dois sanfoneiros compartilhavam não apenas a paixão pela música, mas também o albinismo, característica física que fez com que Hermeto ganhasse o apelido de “Sivuquinha”. A convivência com músicos como Sivuca ajudou a acelerar seu desenvolvimento técnico, mas não alterou aquilo que já parecia ser sua principal característica: a recusa em seguir caminhos previsíveis.
Como o Quarteto Novo mudou a música instrumental brasileira
Quando Hermeto chegou a São Paulo, no início da década de 1960, a música brasileira atravessava um momento de intensa transformação. A bossa nova havia alterado profundamente a linguagem da canção popular, os festivais de televisão ocupavam espaço central na vida cultural do país e uma nova geração de músicos buscava formas de dialogar com o jazz sem abandonar as raízes brasileiras.
Foi nesse contexto que surgiu o Quarteto Novo.
Formado por Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte, Airto Moreira e Théo de Barros, o grupo existiu por pouco tempo, mas produziu uma das obras mais influentes da música brasileira. O álbum lançado em 1967 continua sendo tratado como referência obrigatória para quem deseja entender os caminhos percorridos pela música instrumental nas décadas seguintes.
O que tornava o Quarteto Novo tão especial era a maneira como seus integrantes combinavam elementos aparentemente distantes. O baião, o choro, a música caipira, o samba e a improvisação conviviam de forma orgânica. Não havia a tentativa de reproduzir modelos estrangeiros. O objetivo era construir uma linguagem própria a partir de referências brasileiras.
O impacto desse trabalho pode ser percebido até hoje. Muitos músicos que surgiram nas décadas seguintes encontraram no Quarteto Novo uma prova de que era possível desenvolver uma música instrumental sofisticada sem abrir mão da identidade brasileira. Em grande medida, o grupo ajudou a redefinir o papel da música instrumental no país.
Para Hermeto, aquele foi um momento decisivo. Embora já demonstrasse enorme talento como instrumentista e arranjador, foi ali que sua personalidade artística começou a ganhar contornos mais nítidos. A liberdade que marcaria toda a sua trajetória já estava presente nas gravações do quarteto.
O encontro entre Hermeto Pascoal e Miles Davis
Poucas histórias ilustram melhor a dimensão internacional de Hermeto Pascoal do que sua relação com Miles Davis. No final dos anos 1960, graças à proximidade com Airto Moreira e Flora Purim, Hermeto seguiu para os Estados Unidos e passou a frequentar ambientes onde circulavam alguns dos maiores nomes do jazz mundial.
Foi nesse contexto que chamou a atenção de Miles Davis.
O trompetista atravessava uma fase de intensa experimentação musical. Discos como In a Silent Way e Bitches Brew haviam ampliado os horizontes do jazz e aberto espaço para novas sonoridades. A criatividade de Hermeto encaixava-se perfeitamente naquele ambiente de busca permanente por novas possibilidades.
Miles gravou composições do brasileiro e passou a demonstrar admiração pública por seu trabalho. A aproximação entre os dois gerou episódios conhecidos, incluindo a utilização de músicas de Hermeto sem os créditos adequados em algumas gravações. Apesar disso, o músico alagoano nunca transformou o episódio em uma disputa pública permanente. Ao longo dos anos, preferiu destacar a relação artística que manteve com um dos nomes mais importantes da história do jazz.
O reconhecimento internacional ajudou a consolidar sua reputação, mas não alterou sua essência. Mesmo frequentando festivais e palcos ao redor do mundo, Hermeto continuava carregando consigo as referências musicais que haviam nascido décadas antes no agreste alagoano.

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