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No dia 19 de junho de 2026, Chico Buarque completa 82 anos. É uma boa ocasião para lembrar que sua trajetória dificilmente cabe em uma única definição.
Ao longo de mais de seis décadas, Chico se tornou um dos compositores mais importantes da música brasileira, escreveu romances premiados, produziu peças que marcaram o teatro nacional e construiu uma obra capaz de atravessar diferentes gerações. Poucos artistas brasileiros conseguiram circular por tantos territórios criativos sem que um deles apagasse os demais.
Talvez por isso seja tão difícil responder a uma pergunta aparentemente simples: afinal, quem é Chico Buarque?
O compositor que ajudou a contar o Brasil
A maioria dos brasileiros conheceu Chico através da música.
Sua ascensão aconteceu durante os festivais da canção dos anos 1960, um período em que a televisão ajudava a transformar compositores em figuras populares. Em 1966, “A Banda”, interpretada por Nara Leão, venceu o Festival de Música Popular Brasileira da TV Record e levou seu nome para milhões de lares.
Mas o sucesso inicial foi apenas o começo.
Nos anos seguintes, Chico produziu uma sequência impressionante de canções que permanecem vivas no repertório brasileiro. “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, “Cotidiano”, “Construção”, “João e Maria”, “Pedaço de Mim”, “O Que Será” e tantas outras continuam sendo revisitadas por artistas de diferentes gerações.
O mais interessante é que suas músicas raramente se limitam a falar de sentimentos individuais. Mesmo quando aborda o amor, Chico costuma observar algo maior. Em suas canções aparecem trabalhadores, crianças, mulheres, malandros, sonhadores e personagens anônimos que ajudam a compor um retrato bastante amplo da sociedade brasileira.
Por isso, ouvir Chico Buarque é também ouvir histórias.
Quando a canção se aproxima da literatura
Existe um aspecto curioso na obra de Chico. Muitos ouvintes chegam até suas músicas pela melodia e permanecem por causa das letras.
Desde muito jovem, ele demonstrou interesse pela literatura. Cresceu em uma casa cercada de livros, convivendo com intelectuais, escritores e artistas que frequentavam sua família. A influência desse ambiente aparece claramente em sua forma de escrever.
Canções como “Construção”, “Pedro Pedreiro”, “Geni e o Zepelim” ou “Olhos nos Olhos” revelam um autor interessado em criar personagens e narrativas. Em vez de simplesmente expor emoções, Chico frequentemente constrói histórias completas dentro de uma música.
Essa característica ajudou a aproximar sua obra da literatura.
Não por acaso, muitos professores utilizam suas letras em salas de aula, enquanto pesquisadores dedicam estudos inteiros à forma como ele trabalha a língua portuguesa. Sua escrita combina sofisticação e clareza de uma maneira rara, capaz de dialogar tanto com especialistas quanto com ouvintes comuns.
A resistência durante a ditadura militar
A trajetória de Chico Buarque também se confunde com um dos períodos mais difíceis da história brasileira.
Durante a ditadura militar, artistas passaram a conviver com mecanismos cada vez mais rígidos de censura. Músicas, peças de teatro, filmes e livros eram frequentemente analisados antes de chegar ao público.
Chico tornou-se um dos alvos mais conhecidos desse sistema.
Canções como “Apesar de Você” e “Cálice” entraram para a história não apenas por sua qualidade artística, mas pela maneira como conseguiram expressar críticas ao regime em um contexto de forte repressão. Muitas vezes, metáforas e ambiguidades serviam como ferramentas para escapar dos censores.
Em 1969, o compositor decidiu se mudar para Roma, onde permaneceu por cerca de um ano. Ao retornar ao Brasil, encontrou novas formas de continuar produzindo. Uma das mais conhecidas foi a criação do pseudônimo Julinho da Adelaide, utilizado para registrar algumas composições sem chamar imediatamente a atenção da censura.
Décadas depois, essas músicas continuam sendo lembradas não apenas como documentos de um período histórico, mas como obras que mantiveram sua força artística muito além daquele contexto.
O teatro como extensão de sua obra
Embora a música tenha sido o principal veículo de sua popularidade, ela nunca foi suficiente para conter sua inquietação criativa.
No final dos anos 1960, Chico começou a se dedicar também à dramaturgia. Em pouco tempo, produziu algumas das obras mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo.
“Roda Viva”, encenada pela primeira vez em 1968, tornou-se um marco cultural e político. Mais tarde vieram trabalhos como “Calabar”, escrita em parceria com Ruy Guerra, “Gota d’Água” e “Ópera do Malandro”.
Quem conhece essas peças percebe que elas dialogam diretamente com temas presentes em suas canções. Questões relacionadas ao poder, às desigualdades sociais, aos conflitos humanos e às contradições do Brasil aparecem constantemente em sua dramaturgia.
Em vez de representar uma ruptura com sua produção musical, o teatro ampliou as possibilidades de expressão de temas que já estavam presentes em sua obra.
O escritor que conquistou a crítica literária
Durante muito tempo, a imagem do compositor foi tão forte que acabou ofuscando outra faceta importante de sua trajetória.
Em 1991, Chico lançou “Estorvo”, seu primeiro romance. O livro chamou atenção da crítica e mostrou que sua relação com a literatura era mais profunda do que muitos imaginavam.
Nos anos seguintes vieram “Benjamim”, “Budapeste”, “Leite Derramado”, “O Irmão Alemão” e “Essa Gente”. Aos poucos, seu nome passou a ocupar espaço também entre os principais escritores brasileiros contemporâneos.
O reconhecimento mais importante chegou em 2019, quando recebeu o Prêmio Camões, considerado a principal distinção da literatura em língua portuguesa.
Foi um momento simbólico. Afinal, tratava-se de um autor que já não precisava ser apresentado como “o músico que também escreve livros”. A essa altura, sua obra literária já possuía relevância própria.
Por que Chico continua importante?
A cada geração, novos artistas surgem e novas tendências ganham espaço. Ainda assim, algumas obras conseguem atravessar o tempo sem perder a capacidade de dialogar com o presente.
É exatamente isso que acontece com Chico Buarque.
Suas músicas continuam sendo gravadas, seus livros permanecem em circulação e suas peças seguem despertando interesse. Mais do que isso, muitos dos temas presentes em sua produção permanecem atuais: as desigualdades sociais, as relações humanas, os conflitos políticos, os afetos e as contradições da vida cotidiana.
Talvez essa seja a principal razão para sua permanência.
Chico nunca tentou escrever apenas sobre o seu tempo. Ao observar pessoas comuns, suas alegrias, frustrações, desejos e medos, acabou criando uma obra que continua fazendo sentido décadas depois.
Aos 82 anos, seu legado já está consolidado. Ainda assim, a impressão é que sua produção permanece em movimento, sendo constantemente redescoberta por leitores, ouvintes e espectadores que encontram nela novas interpretações para o Brasil e para si mesmos.
Poucos artistas brasileiros deixaram uma marca tão ampla na música, na literatura e no teatro. Menos ainda conseguiram fazer isso sem abrir mão da qualidade em nenhuma dessas áreas. É por isso que, ao falar de Chico Buarque, a sensação permanece a mesma: uma única profissão nunca foi suficiente para explicá-lo.

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